quarta-feira, 19 de março de 2014

A Grande Árvore

(Texto publicado no suplemento Folha Ambiente & Sustentabilidade, encartado neste 19 de março)
É impossível não admirá-la. Quem passa pelo HU rumo aos bairros mais distantes da zona leste depara com um gigante da natureza – provavelmente a maior árvore da área urbana de Londrina. Tem estimados 22 metros de altura. As raízes, irradiadas em todas as direções, chegam ao dobro desse tamanho, no mínimo. A copa, com 35 metros de comprimento, alcança as duas calçadas da Avenida Robert Koch, como se formasse um portal. É, de fato, exuberante aquela seringueira.
Seringueira?
É o que pensam dez em cada dez pessoas. Por conta do látex que sai do seu caule, imagina-se que seja da espécie que impulsionou o crescimento de Manaus, Porto Velho e Belém durante o Ciclo da Borracha, na virada do século XIX para o século XX. Ledo engano.
É uma figueira!
“Todos confundem, inclusive os próprios estudantes de Biologia”, afirma Moacyr Medri, doutor em Botânica pelo Instituto Nacional de Pesquisa da Amazônia (INPA) e professor aposentado da UEL. “A confusão se dá porque é muito leitosa”, ele explica. “O látex dela também dá borracha, mas tem composição muito baixa em relação ao da seringueira, o que a torna inviável economicamente”, acrescenta. “Nem parentes elas são.”
Diferentemente da seringueira, pertencente à família Euphorbiaceae e nativa da região amazônica, a figueira – ou Ficus elastica, da família Moraceae – é uma árvore exótica no Brasil. É originária do Sudeste Asiático e, segundo Medri, aqui chegou pelas mãos de imigrantes. Ao contrário da seringueira, que se assemelha mais ao brasileiríssimo ipê, a figueira não dá flores nem frutos; se reproduz por estacas.
De baixa resistência, a madeira também não é explorada comercialmente. É, portanto, uma planta ornamental, que tem um ritmo de crescimento impressionante. Enquanto a peroba rosa, por exemplo, absorve de 10 a 12 miligramas de gás carbônico por hora em cada decímetro quadrado de folha, a figueira absorve de 30 a 36 mg.
Enquanto as folhas se alimentam de CO2, diz Moacyr Medri, as raízes utilizam oxigênio. “A figueira tem um metabolismo muito ativo, que requer grande quantidade de O2. Para isso, além do sistema subterrâneo, ela lança raízes aéreas, chamadas adventícias, que maximizam a absorção de oxigênio e ajudam a dar suporte ao caule”, descreve o botânico.
“É uma árvore voraz, que não rejeita solo; para ela, qualquer barranco serve. Em terras profundas e férteis, cresce ainda mais vigorosa. Em seu habitat natural, como a Malásia, pode chegar a 60 metros de altura.”
O homem que ajudou a plantar “A Grande Árvore” da Avenida Robert Koch mora a poucos metros do terreno da antiga Cervejaria Londrina, onde trabalhou durante 36 anos. Olívio Gaion, que muito pequeno ganhou o apelido de Léo, chegou à cidade, com a família, em 1942, proveniente de Ibitinga, SP. O pai, José Souza Gaion, comprou um sítio de cinco alqueires, mais tarde cedido à família Garcia em troca do asfalto no loteamento que viria a ser o Jardim Gaion.
“Lá onde está a árvore ficava a porteira do sítio”, conta Léo, hoje com 67 anos de idade. “Fomos pescar no Três Bocas, eu, meu pai, um tio e um pessoal do sítio, e na volta achamos umas mudas no meio do pasto do Pimpão. Arrancamos duas, com raiz e tudo, e plantamos ao lado dos palanques da porteira. Uma delas, quando já tinha uns seis metros, nós cortamos porque estava forçando o palanque. A outra ficou, e virou aquilo lá. Num instantinho ela já estava uma arvrona.”
Léo arrisca que o ano do plantio tenha sido 1952, o que confere à figueira a condição de sexagenária. Mas o que, afinal, teria atraído a atenção dos Gaion a ponto de terem pegado as mudas perto do Ribeirão Três Bocas para plantar no sítio? Léo responde:
– A gente achou que era seringueira.

quinta-feira, 6 de março de 2014

Você já viu?


Terreno vadio.
Menino baldio!
Pequeno tiziu.


Você já viu?

Grana em extravio.
Cadela no cio.
Curto pavio.


Você já viu?

Lata d`água no ‘sarril’.
Faca no esmeril.
Puta que pariu.

Você já viu?

Balanço de quadril.
Hormônios a mil
– sob céu anil.

Você já sentiu?

terça-feira, 14 de janeiro de 2014

Troca-troca

O cidadão bota “Feira de Mangaio” na vitrola e, sozinho no quarto do som, começa a dançar como se conhecesse todos os passos do samba, do maracatu, do xaxado, do xote, do frevo, algo assim como um Carlinhos de Jesus melhorado, a mandar ver no sapateado, nas viradas, nos gracejos com os pés sem sair do lugar, os deslizados pra cá e pra lá, como se naquele momento fosse capaz de concatenar cada passo conforme a exata batida da melodia, e daí se dá conta de que mal dançava música lenta nos tempos de clube e de república, que perdeu não sabe quantas chances de novas namoradas por não saber – nem ter coragem – arriscar um passo sequer em roda de pagode cheia de bêbados, de só não ter passado vergonha na valsa de formatura da filha por saber que, ali, no salão, ninguém sabia dançar direito, se dá conta de que já tentou aprender uma vez, não deu certo, desistiu por achar que jamais levaria jeito pra coisa, mas ele está ali agora, enfeitiçado pelo acordeon do Sivuca, e acha que, de repente, não deve ser tão difícil assim, só precisa de uma ajudinha extraterrena, faz que olha pra cima e começa a conversar com Deus.
“Pô, Divino”, começa ele, sem levar muito a sério, “bem que o Senhor podia dar uma ajudinha aí, né...” E prossegue, entre o transe e a galhofa: “Se o Senhor acha que está muito tarde para aprender, tudo bem, eu também acho, mas o Senhor a gente podia negociar, sei lá, tirar alguma coisa para incluir isso, um lance de troca, sabe como é?”.
E não é que o Divino responde?
“E o que você daria em troca?”
Surpresa! E agora?
“Sei lá, vê aí, a gente podia...”
“A casa financiada?”
“Não, a casa não, sei lá, algo do tipo...”
“O carro novo, com som e tudo?”
“Também não. Vê aí algo que o Senhor me deu quando nasci e, agora, pode trocar...”
“Depois de tudo o que você aprontou, não deve ter sobrado muita coisa aí pra você trocar, mas deixa Eu ver, cabelo! Você aprende a dançar mas fica careca”.
“Cacildes... Tô fora, escolhe outra coisa”.
“Amizades... Vou te tirar uns amigos”.
“Melhor não, já não tenho muitos, não dá pra abrir mão de nenhum”.
“Já sei: lembranças! Tiro da sua memória lembranças tipo Ilha do Mel, a decisão do Brasileirão de 93 no Morumbi, aquela mulata de Arapongas... Já passou mesmo”
“Pelo amor de Deus, Divino, pára com isso!”.
“Assim fica difícil, você não abre mão de nada. Já sei: vou cortar um pedaç...”
“Êêêêê!!!”
“Calma, só um peda...”
“Êêê, pó pára!”
"Mas você nem sabe o que é, não me deixa terminar".
"Sei muito bem o que está passando nessa cabecinha aí".
“Larga de ser tonto, só um pedaci...”
“Nem vem!”.
“Pensa bem, um tiquinho de nada”.
“Ó o celular tocando, ó, vou lá, papo encerrado. Que conversinha, hein...”

sexta-feira, 10 de janeiro de 2014

Putaria e Jornalismo

Em maior ou menor grau, Putaria e Jornalismo sempre estiveram intimamente ligados. Pelo menos foi isso que a vida me ensinou. Quando cheguei a Londrina, em 1984, desci na Rodoviária Velha. Quando vi que a Nova, projetada por Niemeyer, não passava de umas vigas abandonadas pela primeira administração Belinati, soube que ali, exatamente, funcionava a Vila Mattos. Eu, que mal conheci o Largo Velho, de Ituverava, deixei de conhecer também a lendária zona londrinense.

Mas quis o destino que eu fosse morar no meio do freja. A lendária república da Paraíba 322 ficava 50 metros acima da linha férrea – que, desativada, daria lugar ä Leste-Oeste. Na esquina da Paraíba com a Fernando de Noronha (no Sesc) e com a Benjamin (antiga HM), os travecos já faziam ponto. As meninas de rua ficavam ao longo da Quintino, em especial ao redor do Nanico, que funcionava no andar de cima daquele posto que hoje fica em frente ao Shopping Quintino. A poucos metros dali, na curva da JK, funcionava o Sereno.

Ambos serviam deliciosa canja na madrugada – a do Sereno, mais pomposa, com seus talheres e bandejas; a do Nanico, mais popular, acrescida da parede chapiscada na qual ralávamos braços e cotovelos para conseguirmos chegar lá em cima, tarefa nem sempre fácil se levarmos em conta que chegávamos lá, invariavelmente, às quatro da matina, depois de peregrinar por Jota, Lumiar, Clube da Esquina e Valentino, nem sempre nesta ordem.

O Nanico eu frequentava mais durante a faculdade. O Sereno, cujas meninas estavam um degrau acima, embora algumas perambulassem por um e outro indiscriminadamente, eu freqüentei mais quando virei jornalista – ou seja, a partir de 1987. Ainda hoje rimos com a história do Robertinho Marginal que, rejeitado por uma gata, sugeriu que ela enfiasse, lá, o objeto de seu desejo – como se ambos ficassem muito distantes um do outro.

Mas esse trololó todo (às vezes eu entendo o Fábio Linjardi, que não consegue ler textos com mais de 140 toques) é pra dizer que acabei de ler, nas últimas semanas, dois livros que me foram emprestados pela turquinha Márcia Neme Buzalaf: “Eny e o Grande Bordel Brasileiro”, de Lucius de Mello, e “Tarso de Castro: 75 kg de músculos e fúria”, de Tom Cardoso.

É impressionante como esses dois universos – Putaria e Jornalismo, ambos em caixa alta – se interseccionam.

Eny era neta de italianos da região de Salerno. Cresceu rebolando pelas ruas da Vila Mariana enquanto entregava marmitas da pensão da mãe. Fugiu com um gigolô para o Rio, passou por Porto Alegre e depois Paranaguá até fincar raízes em Bauru, onde montou uma casa – em mais de um endereço – que recebia, além de usineiros e barões de café de toda a região, políticos e seus asseclas. João Goulart passou por lá. Vinicíus lá se hospedava quando tinha shows agendados em Bauru e cidades próximas.

Já o livro de Tom Cardoso (belo texto, hein...) desnuda Tarso de Castro, que cresceu chafurdando no jornal do pai em Passo Fundo e, já na Última Hora de Porto Alegre, sitiou-se no Palácio do Piratini ao lado dos brizolistas mais fanáticos à espera dos tanques e aviões que nunca chegaram. Na ditadura, já no Rio, fundou O Pasquim e, em São Paulo, botou a Folha de S. Paulo de pernas pro ar. Passou o rodo na mulherada das duas capitais na mesma medida em que colecionou amigos e inimigos – nos primeiros, dava beijos na boca; nos outros, chutes na canela.

Foi legal ler o livro também por ter encontrado referência ao cartunista Jota, que mora na minha rua, e a Nelson Merlin, com quem trabalhei na Folha de Londrina. José Pires, o Jota, integrou a equipe de cartunistas que, sob a batuta de Tarso, revolucionou a "Ilustrada", na qual trabalhava Merlin, que certo dia desobedeceu o chefe e mandou para o lixo a nota de falecimento que o mesmo mandara publicar anunciando a morte de Jaguar. Tarso vivia nos bares – onde, pensando bem, tudo começa, até chegar na zona.

Bares e zona são o tema central de "O Brasil oculto", de Mauri König, repórter especial da Gazeta do Povo e meu ex-colega de Folha. Ele e Albari Rosa, craque da foto, percorreram 42 mil km pelos extremos do Brasil. Foco: turismo sexual e prostituição infantil. Comecei hoje. Promete.

sábado, 4 de janeiro de 2014

A volta triunfal aos gramados (Truco, ladrão!)

AOS INIMIGOS

Foi triunfal minha volta aos gramados, neste sábado, 4 de janeiro de 2014 - uma data histórica. Foi no campo do PSTC, em Cambé, o bairro mais populoso de Londrina, que desfilei minha arte perante um monte de japoneses boquiabertos. Enquanto eu ainda cortejava a bola, depois de tanto tempo afastado, perdíamos de 1 a 0. Quando passei a ocupar o meio-campo, minha posição predileta, o cenário mudou. Empatamos. O jogo permaneceu duro até o 3 a 3 - havíamos feito 3 a 1 graças a um desarme meu que resultou em gol. Depois, foi só festa: 6 ou 7 a 3, perdi a conta. Dei passes precisos, me posicionei corretamente, chamei o jogo, dei duas assistências que não viraram gols devido à ruindade latente de quem recebeu os lançamentos e, por fim, marquei meu retorno com um resultado positivo, uma goleada indiscutível, que me anima para os próximos embates. Que a Arena Vale do Rubi e o Estádio Municipal Cacá Scolari me aguardem.

AOS AMIGOS

Porra, foi foda. Tentei me segurar, como havia me aconselhado o Aureo Cinagawa, o cara que operou meu joelho em fevereiro. Mas entrei numas de acompanhar quase todas as jogadas. Enquanto tive pernas, acertei bons passes, mas depois o bicho foi pegando. Na hora agá, errei 3 ou 4 assistências fáceis, simplesmente porque telegrafei os passes - ser desarmado por um zagueiro japa é pracabá. Tentei alguns chutes, que só comprovaram que falta muito para chegar minimamente ao que eu era. Pareciam chutes de amador do Nepal. Tá tudo doendo. Os músculos em volta dos joelhos estão em frangalhos - no final da pelada, fui pro gol, temeroso de que a fadiga muscular me traísse e acabasse pisando em falso, torcendo o joelho, sei lá. Tá doendo do dorso do pé esquerdo até o pescoço. Vai demorar pra caralho para, pelo menos, voltar a brincar legal. Pelo menos não matei nenhuma na canela - o gramado, impecável, tem muito a ver com isso.

quarta-feira, 1 de janeiro de 2014

O Orkut ainda existe! (Ou: as primeiras gargalhadas de 2014)

Juro por Deus que não sei por que; sei que devo ter clicado em alguma coisa porque, uma hora de soneca depois, voltei ao computador do meu irmão, ao lado da cama, e minha página no Orkut estava aberta em uma das abas do Google Chrome que eu estava navegando antes de cair no sono. A primeira surpresa, claro, foi "SIM, O ORKUT AINDA EXISTE". Imaginava, sinceramente,que o Face o havia engolido, o havia inutilizado, de tão ultrapassado ficou em relação ao seu colega de relacionamentos. Mas o bicho está lá, firme e forte, e operante, como pude constatar ao clicar nas minhas configurações e atestar que, de fato, estou com 48 anos de idade.

O Facebook deve ter nos deixado em torpor, tamanhas a velocidade e a intensidade com que mexeu nas nossas vidas. Foi a conclusão a que cheguei ao verificar que nem faz tanto tempo assim que fiz minha última atualização no orkut - dezembro de 2011, ou seja, somente dois aninhos atrás. O último comentário foi da Wal Batista, diagramadora d'O Diário, de Maringá, que me parabenizou pelo aniversário, e eu a chamei de minha funcionária mais alto astral, porque ela era mesmo, e porque ela havia me chamado de chefe, que fui mesmo.

Passeando pela relação dos amigos, dei as primeiras gargalhadas de 2014. A Telma Elorza - que ainda não tinha o "HO" como marca registrada - tem uma foto de menininha. Não sabia que era amigo orkutiano do prefeito Kireeff. Há amigo que não é mais meu amigo e hã amigo que limei da relação dos amigos do Face. Há velhos amigos em comum com o FB: Carla Sehn, Ivo Akio, Sonia Weil, Mineirinho, Benê Bianchi, a Natália Fischer e as amiguinhas dela, o Edenilson, o Preto, o Feinho, a Valéria Giani, o Armandinho, a Alessandra com cara de Bia Pajolla, quase todos os jornalistas, diagramadores e fotógrafos de Maringá, o Gilberto Abelha e o Aníbal, a Karen Debértolis e o Luizão Jacobs...

E as tais comunidades? Tinha - tenho, claro, posto que ainda estão lá - 14 comunidades, entre elas "Eu sou gateiro", "Bar Valentino", "84, ano em que fizemos contato" (no FB virou "Eu sei o que você fez em 1984", que reúne a turma com a qual entrei na UEL), "Banda Beco" (do guitarrista Bruka Lopes e do maior batera de todos os tempos, Kadu Guariente), "Um Orkut para Daibert" (assim como é feito hoje com Andrea Monclar, fizemos com Juliana Daibert, repórter d'O Diário) e "Henri estamos torcendo por vc" (página de apoio a Henri Jr, querido repórter-fotográfico maringaense que o câncer levou aos vinte e poucos anos de idade).

Na parte das Visitas Recentes, está lá: Total de visitas, 3891; Semana passada, 0. Fiquei tentado a navegar entre os comentários, mas, definitivamente, não tenho saco para ler o que escrevi há dois anos ou mais.

Engraçado... Sem querer, na primeira tarde de 2014 me pago visitando o passado. Psicólogo Apolo Mário de Souza Theodoro, o senhor poderia explicar isso?

A primeira manhã de 2014

Será mau presságio sonhar com duas ex-namoradas na primeira madrugada do ano? Se for, tô fudido. Acordei às oito e pouco com as lembranças de um caso que encerrei há sete anos - lembranças tórridas, aliás - e outro bem mais recente. Estranha maneira de começar a primeira semana do tal ano novo. Sensação estranha - mais pra ruim que pra bom. Levantei e tomei café com biscoito de polvilho, porque as padarias hoje nos abandonaram. Meu pai, que nunca foi de comer nada pela manhã, fazia o primeiro cigarro de palha do dia. "É... Ano de Copa...", comentou, talvez esperando engatar um papo que não rolou.

Fui pro sofá e li mais 15 ou 20 páginas de "Eny e o Grande Bordel Brasileiro", de Lucius de Mello, excelente biografia romanceada da cortesã mais famosa de Bauru. A Casa da Eny mexeu com a cidade em meados do século passado. Conheci a casa, alguns anos atrás, levado por uma amiga fotógrafa que fez pós em Londrina e uma amiga dela. Funcionava um bar no local, com sinuca, mas pelo tamanho do imóvel e o número de quartos cujas portas dão para um amplo jardim deu para imaginar o rendevú que era.

Peguei a bicicleta e avisei os velhos que daria uma volta, com a intenção de suar um pouco e encarar o banho preparatório para o tradicional almoço de ano novo na casa da vó Zizinha. Peguei o rumo da avenida Mogiana, que substituiu o leito da linha férrea. O prefeito da época acertou em cheio: plantou centenas de palmeiras imperiais ao longo da avenida, que está muito bonita e hoje concentra grande parte do comércio de Guará.

Passo pelo professor Tufi com sua indefectível bicicleta. A única imagem que tenho dele é andando de bicicleta. Se tem ou algum dia teve carro, seo Tufi acho que nunca dirigiu. É professor de Educação Física, de tradicional família libanesa, os Chaud, embora, na infância e adolescência, tenha sido mais ligado aos Tannous e aos Aboud. Seo Tufi me deseja feliz ano novo, retribuo daquele jeito alemâo de ser, "pro senhor também", mal olho para ele, pedalo adiante. Poucos segundos depois seo Tufi deseja o mesmo para um sujeito sentado no banco do canteiro central - imaginei que ele saiu de casa para desejar um bom ano para todos com os quais encontrasse.

Fazendo a curva da antiga estação vejo um jovem casal, com mala e banho tomado, certamente se dirigindo à rodoviária. Pombas, mas não são nem 10 da manhã e já vão embora? Devem morar longe. Para São Paulo, por exemplo, poderiam pegar o ônibus depois do almoço que estariam lá a tempo de dormir de boa e aguentar o trampo de amanhã. Iriam os dois ou o rapaz estaria fazendo a gentileza de levar a bagagem da irmã/namorada?

Entro num pedaço de rua sem asfalto que é prolongamento da Washington Luiz e que ainda está sem asfalto porque ali vai sair o novo loteamento da cidade - meu pai e meu irmão reservaram dois lotes e, se sobrar algum, vão passar a pagar as prestações em breve, com o início efetivo do empreendimento. Muitos canudos de papelão pelo chão, acusando fogos de artifício espoucados. No portão de entrada casa do seo Ziquinho de Paula, um gatinho preto, com poucos dias de vida, chama a atenção, andando sem rumo pela calçada. Mais de perto vejo que um irmão dele está estatelado, meio que no local onde passam as rodas direitas do carro. Hum...

Seo Tufi foi o cara que, trinta e cinco anos atrás, disse que minha posição era a de volante. O livro de Lucius de Mello remete ao caso amoroso mais recente. Hoje é aniversário do caso mais antigo, que eu vi pela última vez no final de semana em que o Corinthians foi rebaixado. Deixa pra lá. Tem frango caipira, polenta, pernil e cerveja nos aguardando na vó. Vou acordar meu irmão, esse folgado.

domingo, 29 de dezembro de 2013

Extra, extra! Vô da Marianne é pioneiro em Guará!

O tempo passa, o tempo voa e as ligações históricas entre minhas duas cidades do coração só crescem. Depois de descobrir, acredito que nos anos 90, através de uma reportagem de Widson Schwartz, que Antonio Fernandes Sobrinho, mais jovem prefeito de Londrina, eleito aos 32 anos de idade, é guaraense da gema, agora a nossa Marianne de Paula Alves me revela, via Facebook, que o avô paterno dela, José de Castro Alves, o Castrinho, é pioneiro de Guará. Ele era farmacêutico, informa Marianne. Me pus, claro, a investigar a informação. E quem melhor para lembrar de algo dos antigamentes senão dona Zizinha, minha vó materna, do alto de seus 94 anos? "Lembro sim", aformou, de pronto, Elzira Ilza Tizziotti, última de oito irmãos descendentes de italianos cuja tribo, imagino, seja a mesma dos Pavarotti, dadas a compleição física, atarracada, e a cabeça redonda como um globo, praticamente sem pescoço. "Foi ele que abriu a farmácia que, depois, foi tocada pelo seo Rubens", complementou a senhora Paulo Fischer, imprimindo referências claras e diretas da localização do local de trabalho do Castrinho. Meu tio João, caminhoneiro aposentado, genro da dona Zizinha, casado com a Ciló, aquela que costuma cozinhar para uma dúzia de pessoas, no almoço de Ano Novo, comida suficiente para o 4º Batalhão de Infantaria Motorizada, acrescentou: já sob nova direção, o nome da farmácia continuou o mesmo, Pharmacia Castro, assim mesmo, com ph, a não deixar dúvidas sobre o autor do empreendimento. Ambos, porém, não souberam precisar a época em que Castrinho exerceu a profissão em Guará, mas dá para estimar que foi na primeira metade do século, algo ao redor das décadas de 30 a 50. Nascido em 1965, nem de seo Rubens eu lembro direito, até porque minha família, sempre que precisava destrancar a garganta ou levar uma agulhada na bunda, recorria à farmácia do seo Wilson, que ficava na mesma rua, a principal, rua Deputado João de Faria. A farmácia do seo Wilson - vi ele hoje, está bem velhinho, mas, segundo meu pai, lúcido - ficava próximo à entrada da cidade e a do seo Rubens ficava pertinho da praça da Matriz, ao lado do bazar do Zé Carlos e defronte o bar do Zé Berto, onde se reuniam os pés-rachados que, de certa forma, até hoje disputam o poder local com os macaúbas. Lembro de ter entrado na farmácia do seo Rubens, uma ou duas vezes - se fosse mais observador, teria lembrado do "Pharmacia Castro". No mesmo quarteirão, ainda em frente à farmácia do Castrinho, funcionavam outro bar concorrido da cidade (onde os passantes comiam coxinhas e a malandragem jogava sinuca de tampinha nos fundos) e o cinema onde assisti a todos os filmes do Bruce Lee e, claro, Garganta Profunda, e que hoje abriga a Igreja Universal do Reino de Deus - ou seja, em termos de sacanagem não mudou muito. Se nos próximos dois dias eu topar com o seo Wilson, vou procurar mais informações sobre o Castrinho. Enquanto isso, a própria Marianne poderia nos agraciar com mais informações sobre a trajetória de seu avô paterno, né, não, Loira?

quinta-feira, 26 de dezembro de 2013

Romário e Vera Fischer no sítio do Diô


Meu tio Diomedes sempre tratou como filhos seus animais de estimação, os quais batiza com nomes de artistas famosos da TV, e eles, invariavelmente, atendem seu chamado - por isso fiquei curioso hoje, 26 de dezembro, quando o Papelão, marido da tia Dite, anunciou, na varanda do sítio, onde já tínhamos emborcado várias latinhas de skol com sal e limão galego, que estava na hora dele, o Diomedes, chamar o Romário para o beijo matinal.

- Quem é Romário? - perguntei, ciente de que a cadela Tieta devia estar por ali, no terreiro, dando um carreirão num frango incauto e a leitoa Xuxa, àquela hora, certamente estaria tomando o segundo banho de lama do dia no mangueiro ao lado do paiol.

- O beija-flor, uai - respondeu Papelão, com jeito de quem presenciou a cena várias vezes.

No dia de Natal, na casa dos meus pais, em Guará-SP, Fernando Papelão ouvira com muita atenção o relato de Paulo, casado com Lívia, minha prima que mora em Penápolis. Há quatro meses Paulo trabalha, como pintor e funileiro, para uma empresa brasileira que constrói barracões industriais no Congo.

Conceituado consertador de máquinas e implementos agrícolas, Papelão - mesmo às vésperas da aposentadoria - ficou deveras interessado pelo salário em euros que a empresa pago aos funcionários depois de receber do governo local. Mas teria a atração congolesa deixado Papelão tantã a ponto de asseverar que um beija-flor, bicho arisco por natureza, se aproximaria do bicho homem como um gato à procura de afago?

- É mesmo - concordou Diomedes, olhando de soslaio para a parede que sustenta a caixa d'água e, também, o bebedouro onde Romário volta e meia sacia a sede. - Daqui a pouco ele aparece - vaticinou.

Aí não, beijar-flor domesticado não, pensei eu, mesmo sabendo que o Sítio Boa Esperança, na Grotinha, onde nasceu boa parte dos dez irmãos da minha mãe, em quase nada difere do Sítio do Pica-Pau Amarelo. Diria mesmo que se não houvesse havido Monteiro Lobato em Taubaté um século atrás, talvez fosse tio Diô, hoje, a povoar a nossa imaginação.

Mesmo sem Romário, a coisa passou a ficar um pouco mais crível quando Diô, olhando pro outro lado, tascou:

- Lá vem a Vera Fischer.

Todos olharam para o terreiro, onde uma franguinha creme ciscava, bicando ora um inseto ora uma migalha de pão atirada na beira da cerca de arame que protege a varanda da cachorrada e da galinhada. A um chamado que certamente somente ambos entendem, Vera Fischer atravessou a cerca de arame (como se uma foca passasse por uma argola apertada), pulou no ombro do Diomedes e ali ficou, como se estivesse cumprindo um ritual para o qual tivesse exaustivamente sido treinada.

Diô, instigado por alguém da cozinha, levantou-se da cadeira de descanso para fazer alguma coisa na pia e Vera Fischer seguiu seu rumo. À beira da pia, Diomedes avistou Romário e fez com a boca um sinal que, se não fosse sonoro, lembraria perfeitamente uma dupla jogando truco. E não é que o beija-flor sentou no dedo indicador dele, como fazem os papagaios e os pássaros preto?

E ali permaneceu, batendo as asas naquele ritmo frenético dos beija-flores, até que Diomedes propôs um beijo de língua, e Romário, como se fugisse de um Júnior Baiano, vazou a 800 km/h, rumo à jabuticabeira que, devido ao pinga-pinga constante de um torneira, dá jabuticaba o ano inteiro.

- Tem muita gente hoje aqui, acho que ele se assustou - arriscou Papelão, sobre o fato de o beija-flor não ter consumado o beijo em Diô.

Pode ser, pode ser... Mas então acho melhor mudar o nome dele, porque todo mundo sabe que o Baixinho adora estádio lotado.




segunda-feira, 11 de junho de 2012

Você Esporte Clube

http://www.multitvcidades.com.br/play.php?video=974#titulo

Eis o terceiro dos três blocos do último "Você Esporte Clube", programa semanal que eu e Cláudio Osti estamos apresentando já há umas cinco semanas na MultiTv Cidades, canal 20 da NET em Londrina. Tentamos mesclar assuntos sérios com algumas presepadas. Neste vídeo, por exemplo, não poderia ter deixado de mandar um grande abraço ao Marcelinho Carioca, cujo pênalti desperdiçado na semifinal da Libertadores de 2000, diante de São Marcos, completou 12 anos dia 6 de junho. O restante dos vídeos (deste e dos outros programas) está no site da emissora, multitvcidades.com.br. Veja, critique - mas pegue leve, please, porque o mané aqui, em termos de tevê, é marinheiro de primeira viagem.

domingo, 1 de janeiro de 2012

Todo ano é o mesmo crime. Basta!



Imagino que exista algum regime político em atividade – Sudão, Iêmen, Coréia do Norte, Haiti, sei lá – que puna severamente o tipo de abuso que todo ano é cometido em plena luz do dia pelo consórcio Fischer-Tizziotti em Guará, interior de São Paulo. Não é possível que, mesmo no democrático Estado brasileiro, inexista algum capítulo ou mesmo um mísero artigo – ainda que dependa de regulamentação – capaz de ao menos refrear o ímpeto anticristão dessa gente que tem a pachorra de cozinhar para seus 13 membros o equivalente, em comida, para se satisfazer um batalhão de lenhadores.

Hoje, por exemplo. Não obstante os alertas de sempre para o evidente exagero, a Ciló preparou um pernil de porco gigantesco – quatro quilos, numa estimativa modesta – e quatro frangos caipiras que ocuparam, das oito da manhã à uma da tarde, três bocas do fogão de lenha da dona Zizinha, cujos 92 anos não impedem que a faça cúmplice desse estrago jurídico-gastronômico. Meu pai garante que, civilizadamente servidos, apenas os quatro frangos, acompanhados de arroz branco e salada de tomate, satisfariam 30 pessoas.

O problema não se resume somente à quantidade sem noção. A questão mais grave é a absoluta falta de originalidade, o que poderia suscitar o enquadramento em mais de um artigo que tipifique esse tipo de crime. Todo primeiro dia de ano é a mesma coisa: pernil de porco assado, frango caipira em molho, arroz branco, feijão, lasanha, polenta, cerveja, refrigerante e, para sobremesa, bolo gelado e picolé da Vila Vitória. O primeiro almoço de 2012, em razão de condicionantes factuais, trouxe agravantes de balançar a toga até de catedráticos ministros do STF: milho verde em três versões – cozido, refogado e espigas na brasa – e um musse presenteado pela Juliana.

Isso tudo para que José, Ciló, João Luís, Maura, João Batista, Vera, Rogério, Zenrique, Emerson, Mônica, Evelyn e Leandro ficassem – antes, durante e depois da refestelança – batendo papo e dando altas gargalhadas, num claro acinte à sobriedade com que cidadãos decentes deveriam receber o ano que se inicia. Não é possível que esse povo continue agindo assim impunemente. Não é possível!

quinta-feira, 29 de dezembro de 2011

Privataria



Saí de férias e, claro, vim pra Guará. Na mochila - sim, mochila, porque quando venho para cá não trago mais do que a roupa do corpo, independentemente de quantos dias hei de ficar - trouxe "Cronistas do Estadão", que Aurélio Blau-Blau me emprestou sob condição de me exilar na Sibéria caso eu rasure 1% de qualquer folha do livro que, aliauses, era do pai dele, o velho e bom Albano. Deixei em Londrina uma velha edição de “Incidente em Antares”, surrupiada de um médico amigo que, acredito, nem lembra da existência dela. Meus planos era matar o livro de crônicas na minha passagem por aqui e levar o livro do pai do Luís Fernando Veríssimo para a praia, em janeiro, mas o fato é que as crônicas não deram para o cheiro. Em dois dias li todas, de forma que fiquei, literariamente falando, a ver navios. Todo esse narizaço de cera para contar que ontem, quarta, dia 28, comprei o tal “A Privataria Tucana”. Estava no Shopping Ribeirão. Tinha ido acompanhar meu irmão numa parada de trabalho e resolvemos almoçar por lá, na esperança de ver algumas ribeirão-pretanas de fechar o comércio, mas o máximo que conseguimos foi cruzar com uma antiga professora nossa de primário. Fui à livraria comprar jornal e o tal livro-bomba me fisgou. Mesmo sem ler, já havia desconfiado do bicho numa troca de e-mail com um grande amigo. O erro – se assim for confirmado – foi ter parado na frente dele. A editora me fisgou como a uma tilápia faminta. Na capa, como um Sunday derretendo na sorveteria da dona Celita, está lá: “Os documentos secretos e a verdade sobre o maior assalto ao patrimônio público brasileiro”. Nas orelhas, em que a editora oferece “clareza e objetividade jornalísticas”, as últimas linhas são um resumo comparável a doce de leite comido de colher: “Temos aqui um livro-denúncia de rara contundência no seu gênero”. Lembrei do Paulo Lima me cutucando na mesa de sinuca do Jota: “E aí, você viu?”. Lembrei de alguém me dizendo que o autor é de Londrina. Lembrei de que não tinha nada em casa para ler. Paguei 39 paus e trouxe o menino. Entendo quase nada de mercado editorial, mas está lá que o editor é Luiz Fernando Emediato, de quem ouvia falar muito na época da faculdade, como jornalista da grande imprensa. A nota do editor, que antecede os primeiros capítulos, oferece um produto ainda melhor e mais impactante que as orelhas ofereciam. Pensei: caramba, não pode ser ruim um troço assim. Não tenho absolutamente nada a ver com os tucanos. Nunca votei num tucano, nem federal, nem estadual, nem municipal. Minto: votei, certa vez, acho que na eleição que elegeu Cheida prefeito de Londrina, no Jubão, que era do PSDB, mas no Jubão eu votaria mesmo se fosse do PDC, não tinha nada a ver com ideologia. Sempre admirei Covas, e não passa muito disso. Acho que Serra fez um bom trabalho no Ministério da Saúde ao implantar um programa exemplar de tratamento e combate à AIDS e ao quebrar patentes de remédios que interessam a todos. De resto, só lembro dele levando bronca do Felipão por se meter a dar palpite na escalação do Palmeiras em 1999, durante a Libertadores. Tampouco morro de amores por ele e por FHC, em quem nunca votei e com quem só mantive contato uma vez, em 1984, quando eu tinha acabado de entrar na UEL e uma amiga já petista de carteirinha me levou para Assis a fim de participar de um congresso de sociologia que reuniu Fernando Henrique – então com olheiras enormes – e Florestan Fernandes. Acho, porém, um pé no saco o maniqueísmo que se instalou no debate PT x PSDB. Virou uma guerra de baixíssimo nível que, de tão feroz, entorpece a todos e não permite que se veja absolutamente nada no horizonte que não sejam os próprios contendores. Até parece que só existem eles no mundo. Azar nosso que os outros partidos não conseguem nos arrastar para fora dessa briga idiota, em que os caras ficam se digladiando pelo poder e nós – que não temos cargos nem parentes no governo – ficamos chupando os dedos. Aliás, se dependermos de partidos, estamos ferrados. Por isso acho legal, mesmo com eventuais exageros, esses movimentos espontâneos como o do pessoal que se revoltou contra a derrubada das árvores no Bosque. É preciso encontrar uma válvula de escape para essa situação sufocante em que nos meteram. Precisamos encontrar a tal luz no fim do túnel, para a qual tucanos e petistas nunca vão nos levar, porque uns estão querendo recuperar o terreno perdido e os outros estão defendendo o território ocupado a todo custo. E foda-se liberdade de expressão. E fodam-se princípios de toda ordem. Houve roubalheira na privatização? Até um paralelepípedo bêbado sabe disso. Mas imaginem, meus amigos, o governo com Embratel, Light, CSN, Vale, todos os bancos estaduais e uma carrada de outras estatais todas sob o controle do PT. Credencruis. Vamos ser sincerros: deozolivre. Enfim, comprei “A Privataria Tucana” para ler assim, com os olhos de advogado do diabo, com um pé atrás, mais até como um desafio imposto pelas críticas de amigos petistas de que não viram nada sobre o livro – contra ou a favor – na grande imprensa. Li os três primeiros capítulos, de poucas páginas cada. Já tenho as primeiras impressões e lhes digo uma coisa: o cheiro não é nada bom. Prometo uma opinião clara quando terminar.

terça-feira, 27 de dezembro de 2011

Tragédia anunciada

Guará acordou absurdada, por causa da morte de um casal. Zé Antônio matou a mulher, que o chifrava. Duas pessoas tidas como do bem. A mulher - não sei o nome -  tinha 15 ou 17 irmãos, conforme as duas versões que ouvi. Zé Antônio, três. Um deles, o Salvador, não sai do Bar do Zeca, onde, ontem, tomei várias com o Ronaldi Cueio. Nunca comprou uma bala lá no bar, nunca ninguém ouviu um pio dele, mas é tido como uma das pessoas mais bem informadas da cidade. Bem, o irmão do Salvador já havia ameaçado a esposa de morte. Por conta disso, ela já fizera dois boletins de ocorrência na polícia. Homem simples, da roça, de poucas palavras, Zé Antônio matou a esposa com três tiros logo de manhã. Em seguida, foi ao pátio da antiga Mogiana, onde guardava o caminhão com que transportava caçambas. E se matou. Saiu na TV, o escambau a quatro. A cidade ficou estupefata. Minha mãe pediu - e, claro, foi atendida - para que abortássemos a roda de viola prevista para amanhã, no sítio. Não é difícil imaginar o que se passava na cabeça de um matuto como Zé Antônio. Com o assassinato, quis lavar a honra. Com o suicídio, livrar-se da vergonha.

segunda-feira, 26 de dezembro de 2011

Cão chupando manga

É preciso cair de boca numa bourbon, numa sabina ou numa coquinho para se entender exatamente aquela expressão segundo a qual algo ou alguém é tão feio quanto o Cão chupando manga. Pode ser numa espada também, e foi o que fiz hoje, por volta das três da tarde, nesta cidade em que só se pergunta, para quem veio de fora ou da roça, se andou chovendo por lá. Já havia passado duas horas e meia do almoço, bateu aquele oco no estômago e, ato contínuo, acorri à geladeira, onde me esperava a manga espada que a vó Zizinha me presenteara no sábado, quando cheguei em Guará. Mangona de uns 400 gramas. Madura, mas não totalmente. Tinha acabado de passar do estado de “de vez”. Madura, sim, mas com a carne ainda firme, principalmente nas costas, onde manga demora mais pra madurar. Na verdade, comecei de maneira civilizada. No começo, nada indicava que terminaria naquele estado deplorável. Cortei uma banda e chupei, raspando a carne com os dentes de cima, a casca apoiada nos dentes de baixo. Poderia descascá-la e comê-la em pedaços, mas assim seria civilizado demais. O correto – poderia reivindicar um guaraense mais convicto – seria abocanhá-la desde o princípio, arrancando nacos generosos, deixando que os dentes e a língua separassem a carne da casca. Mas o fato é que cada tipo de manga tem um jeito peculiar de ser chupada. Em uma manga grande como a bourbon pode-se usar a faca e cortar de um lado e de outro, deixando o caroço pelado dos lados mas recoberto de carne nas extremidades. Em mangas menores como a coquinho e a sabina, não. Morde-se a bichinha, começando, sempre, pela ponta menor, que é a parte mais doce. A coquinho, se estiver bem madura, pode ser chupada da mesma maneira com que antigamente tomávamos guaraná, ou seja, furando a tampinha. Morde-se a ponta da coquinho e vai-se chupando o caldo na medida em que vai-se espremendo a fruta, de forma que, ao final, sobram apenas a casca, praticamente intacta, e o caroço. Mas, assim, termina-se a operação com a boca limpa, exceto alguns fiapos com os quais pode-se brincar o resto da tarde. Quando se cai de boca numa manga grande, raspa-se até o caroço com os dentes, com voracidade, de maneira que não só os lábios, mas o buço e o queixo também fiquem lambuzados de amarelo tal qual palhaço de picadeiro. Quando, além da voracidade, usa-se a avidez, é comum que a ponta do nariz e parte da bochechas também fiquem amareladas. Daí sim, fica-se com o aspecto digno de um Cão chupando manga. Eu recomendo.

segunda-feira, 28 de novembro de 2011

Orgulho

(Publicado domingo 27/11 no Jornal de Londrina)



  
Desde que o santista Léri-bí apareceu e, mancomunado com o bambi Luís César, fez troça dos “mundiais” do Curíntia e do Parmera, os rivais, caindo feito patinhos, se sentiram desafiados a “provar” que são tão campeões quanto eles. A bola, agora, estava com Bracciola que, a exemplo de Moitinha, tomou um gole generoso de Presidente a fim de aprumar as ideias.

A preocupação de Bracciola era encarar o “inimigo” Luís César. Era conhecido de todos o entrevero deles sobre a importância da Taça Rio, o torneio que a prefeitura carioca promoveu em 1951 para movimentar o gigante Maracanã, às moscas desde a tragédia da Copa de 50. Bracciola se apegava à qualidade do torneio, enquanto Luís César batia na tecla de que se não era da Fifa, então não valia nada.

O palmeirense matutava. Por onde começar? Pelo aspecto técnico da competição, que reuniu oito campeões europeus e sul-americanos? Pela importância histórica da conquista, com a qual o Brasil teria começado a deixar de ser um país de vira-latas, como apregoava Nelson Rodrigues? Pelo formato do torneio, repetido pela Fifa no Mundial de 2000, vencido pelo Corinthians? Pela decisão, em dois jogos, contra a Juventus, da Itália, com o Maraca lotado? Pela festança sem precedentes na volta dos campeões a São Paulo?

Mal Bracciola abriu a boca, Luís César lançou mão, de bate-pronto, do mesmo argumento com o qual rechaçava, sempre, o discurso do palestrino.

– Lá vem ele com essa fita de Taça Rio de novo. Acorda, porcão. Eu me envergonharia dessa sua tentativa de transformar esse torneio amistoso em um mundial de verdade – tascou o são-paulino. Espumando de raiva pela repetitiva tese e pela intempestiva interrupção, Bracciola deixou a Taça Rio de lado para lavar de vez a roupa suja, evocando acontecimentos que iam da Segunda Guerra até Rogério Ceni, passando pela Taça das Bolinhas.

– Eu me sentiria envergonhado se meu time tivesse tentado tomar o estádio de outro na mão grande, se tivesse fugido de campo numa decisão de campeonato, se tivesse levado para casa um troféu que pertence a outro, se treinasse gandulas para impedir contra-ataque dos adversários. Mas, enfim, cada um se orgulha e se envergonha daquilo que pode.

De repente, todos concordaram que estava na hora de chamar o garçom e acertar a conta.

quarta-feira, 16 de novembro de 2011

Primeirão

(Publicado na quinta-feira 15/11 no Jornal de Londrina

Desafiados pelo são-paulino Luís César e pelo santista Léri-bí a provarem que Palmeiras e Corinthians também são campeões mundiais, Bracciola, gentilmente, concedeu a palavra a Moitinha, que tomou um gole generoso de Presidente e passou a divagar sobre a época em que tudo se passou.

Relatou os dias que antecederam a finalíssima contra o Vasco num Maracanã lotado por 73 mil torcedores, em 14 de janeiro de 2000. Está certo que não foi lá um dos maiores públicos do estádio, nem o jogo foi aquela brastemp – um 0 a 0 sem praticamente nenhuma chance de gol, sendo que o título foi decidido nos pênaltis.

Alheio a esses detalhes que só interessavam aos adversários, Moitinha detalhava o clima em Londrina, que recepcionava a Seleção Brasileira Sub-23 que, sob o comando de Luxemburgo, já treinava na cidade e dali uns dias iniciaria, no Estádio do Café, a caminhada rumo aos Jogos de Sydney.

Luxemburgo assumira o comando da Seleção Principal e fizera questão de dirigir também a Sub-23. Ele dirigiu o Corinthians no título brasileiro de 1998, pelo qual o time fora convidado pela CBF para ocupar a vaga de convidado no 1º Mundial de Clubes da Fifa.

Ou seja: todo corintiano de Londrina andava com o peito estufado: a equipe canarinho estava na cidade e seu clube estava prestes a conquistar um Mundial, embora tivesse sido eliminado pelo Palmeiras da Libertadores-99.

Moitinha tirava de letra esses e outros questionamentos, como o fato de o Corinthians ter obtido a vaga na decisão pelo saldo de gols, por conta de um gol a mais que o Real, embora em um dos gols de seu jogo contra o Raja Casablanca a bola não tenha entrado.

E também o fato de que a Fifa segregara o título até 2005, quando houve a segunda edição do Mundial. A entidade demorou quatro anos para reconhecer o título corintiano porque Joseph Blatter afirmara ter sido um erro ter permitido que dois times do mesmo país fizessem a final e que aquela fórmula de disputa (com equipe convidada) jamais aconteceria novamente.

– Tudo inveja. O caneco está lá no Parque São Jorge e pronto – encerrou Moitinha, pedindo licença para tirar água do joelho e passando a bola para Bracciola.

– Quero ver você, porcão, se explicar agora. 

domingo, 6 de novembro de 2011

Clube dos tri

(Publicado neste domingo 06/11 no Jornal de Londrina)

Enquanto Moitinha e Bracciola torciam o rosto diante da súbita manifestação de soberba do até então educado e sereno Léri-bí, que sinalizara a mudança do nome diante da certeza do sucesso santista no Mundial da Fifa, em dezembro, Luís César parece ter curtido o novo companheiro de mesa.

– Léri-tri, né? Gostei dessa. Mas vocês vão ter de jogar muito pra superar a rapaziada do Messi, hein... Esse gostinho de ganhar do Barça em final de Mundial é para poucos. De qualquer forma, boa sorte. De repente a gente arruma um espaço para vocês aqui no clube dos tricampeões mundiais.

– Como é bom ganhar Mundial de verdade, né, compadre? Pena que nem todo mundo é assim.

Léri devolvera a “gentileza” e... pronto! Ficara estabelecida uma divisão clara: santista e são-paulino de um lado; corintiano e palmeirense de outro. Moitinha e Bracciola se entreolharam novamente, como que buscando, telepaticamente, um argumento como contraponto à soberba da dupla adversária. Pelas caras que fizeram, dava para imaginar o calibre da reação que gostariam de ter.

A troca de “gentilezas” foi uma indireta ao Mundial conquistado pelo Curíntia em 2000 – ou Torneio de Verão, como é tratado pelos rivais – e à Taça Rio, que os palmeirenses defendem como verdadeiro Mundial até a morte. Indireta, sim, mas que pegou como um direto de Mike Tyson. Mário, o garçom, deixou duas geladas na mesa e, sentindo o clima, vazou rapidinho.

Moitinha parecia querer voltar aos tempos de várzea no interior de São Paulo, naquelas refregas cujo lema – comum entre ambas as equipes – era algo do tipo “da medalhinha pra baixo é tudo canela”.

A expressão de Bracciola revelava o desenho de uma voadora do Júnior Baiano em tarde de chuva, daquelas em que o animal abria o compasso a dez metros de distância e só largava a vítima após certificar-se de que o coitado já estava devidamente estatelado no alambrado, com três ou quatro fraturas em cada perna.

Moitinha respirou fundo e, supostamente calmo, dirigiu-se ao agora aliado Bracciola.

– Você ou eu primeiro?

– Tenha a gentileza, nobre colega.

domingo, 30 de outubro de 2011

Léri-tri

(Publicado neste domingo 30/10 no Jornal de Londrina)

Mário, o garçom do Cemitério, depositou na mesa as duas brejas e o copo com os quais os três inseparáveis amigos recepcionaram Léri-bí, o santista com nome de música dos Beatles que tão educadamente havia solicitado autorização para entrar na roda dos maiores discutidores de futebol do mundo – assim, pelo menos, se proclamavam. Nem haviam servido o novo amigo e Luís César, sempre o mais curioso, intimou:

– Então, conta a história desse nome esquisito aí...

Os três amigos se viraram para Léri, todo ouvidos. O santista pegou o copo americano, observou um lado, o outro, fez jeitão de suspense e, como que desprezando a intimada, chamou o garçom e pediu para trocar o copo, apontando um suposto sinal de gordura acumulada próximo à linha do colarinho.

– É que meu pai era fã dos Beatles quando era moço e quando o Santos ganhou o segundo título mundial, em 63, disse que quando tivesse um filho colocaria o nome de Paul ou John. Os Beatles lançaram “Let it be” em 70. Eu nasci na semana do lançamento e daí meu pai inventou de dar a mim o nome do disco. Mas o cartório não gostou muito, ele teve que aportuguesar e então virei Léri-bí, porque, afinal, o Santos já era bicampeão mundial.

O pessoal curtiu a história e, de repente, deu aquela desanuviada no ambiente, que ficara meio carregado diante da possibilidade de Léri não ser tão legal quanto aparentou inicialmente. Mas a coisa começou a mudar quando Moitinha sugeriu que pedissem um frango a passarinho para salgarem a boca.

– Frango não curto muito não. Prefiro um porquinho. De preferência, de goleada.

Bracciola, que se levantava para tirar água do joelho, fingiu que não entendeu, engoliu seco e rumou para o banheiro, já pensando no troco. Na volta, tomou um gole generoso e pediu a palavra.

– Por falar em goleada, Léri, lembra daquele 6 a 0 na Vila, no Paulistão de 96?

– Ah, isso aconteceu quando vocês tinham time, né? Agora tô preocupado é com o dia 18 de dezembro. Vamos pegar o Barça em Yokohama e acho que vou ter de trocar de nome.

– Como assim? – perguntou Luís César, inocentemente.

– É, uai. Vou mudar para Léri-tri.

Bracciola coçou o queixo e olhou pra Moitinha, que, por telepatia, entendeu o recado. “Abre a roda, bobão, abre...”

segunda-feira, 24 de outubro de 2011

Léri-bí


(Publicado no domingo 23/10 no Jornal de Londrina)

Passava das onze, a atração principal já se preparava para subir ao palco do Cemitério (o de Automóveis, não o São Pedro) e os três amigos – inúmeras cervejas à mesa – ainda se atracavam em discussões daquelas típicas de bebuns, que vão e vêm, intermináveis.

Começaram com um tema bem leve, o envolvimento do ministro Orlando em denúncias de corrupção, para depois partirem para os mais heavy: as chuteiras verdes de Adriano e Fabuloso em treinos do Curíntia e do São Paulo, a cueca palmeirense de Hugo Hoyama no Pan e, para completar a lista barra pesada, a calcinha supostamente alvinegra de Juju Salimeni – inimiga mortal da nossa Nicole Bahls – no ensaio da Mancha.

Nesse caldeirão de assuntos que, se dependesse deles, ocupariam a pauta do Congresso Nacional e dos programas sérios de TV, os três amigos passaram a se divertir – agora em unanimidade – quando Luís César lembrou a declaração de Romário em Guadalajara, colocando os pingos nos is: “Messi primeiro tem que ser um Maradona antes de chegar a um Romário. E só depois cogitar ser um Pelé”.

Foi quando um sujeito trajando a camisa 10 dos tempos de Aílton Lira aproximou-se da mesa e interrompeu as gargalhadas.

– Olá. Tô ligado que vocês curtem futebol. Posso entrar na roda?

Os amigos foram pegos de surpresa. Ninguém nunca tivera a ousadia de interrompê-los daquele jeito. Entreolharam-se, sem saber o que responder. Moitinha interpelou:

– Quem é você?

– Léri-bí.

– Lélio o quê?

– Não é Lélio. É Léri. Léri-bí.

– Aquela música dos Beatles?

– Isso mesmo.

A mesa abriu nova sessão de gargalhadas. Jamais tinham ouvido apelido mais inusitado. Risos encerrados, Léri permanecia educadamente de pé, à espera de autorização. Bracciola tomou a iniciativa.

– Senta aí, meu. E conta a história desse apelido.

– Não é apelido. É meu nome mesmo.

Os três ficaram com cara de tacho. O papo prometia.

– Marião, duas brejas e um copo, please.

segunda-feira, 17 de outubro de 2011

O avesso do avesso


Tem gente que tem competência para colocar as coisas do avesso. É ou não é? O moleque que nunca viu um troço desses - como nessa charge que vi agora no Feice - não poderia pensar outra coisa. E pensar que redigi muita matéria em máquina de escrever. A que eu usei na Folha de Londrina está em casa. Uma Lexikon 80 verde, que passou por uma sessão completa na loja do Ninho (Centro Comercial) e está plastificada no balcão da cozinha, à espera de que eu compre móveis decentes e a instale num local definitivo. Estaria totalmente protegida em seu invólucro, não fosse um fura-bolo impertinente do Giovanni, que rasgou o plástico no setor sudoeste. Se fosse o mapa do Paraná, o furo sinalizaria Pato Branco, Palmas, por ali. E o piá do Marião ainda sentou o dedo no meio das teclas 3 e 4. As teclas encavalaram e assim ficaram, porque não há como enfiar o dedo pelo vão de cima para desencavalá-las. Se tivesse puxado para o Corinthians, como o pai, levaria uns petelecos, mas, como é Tubarão, decidi relevar. Quando a Folha informatizou a Redação, em 1992, se não me engano, eu, com 25, 26 anos, fiquei tão assustado quanto o Jota Oliveira, o Stélio. Que coisa absolutamente non sense para os dias de hoje: aprendemos o que é cursor, quantas vezes clicar para abrir um arquivo, como fazer para salvar o texto a cada uma ou duas linhas redigidas a fim de evitar que cometêssemos um erro e perdêssemos o texto. O básico do básico do básico, que já veio no chip dos que nasceram, sei lá, de 1995 para cá. Até funcionaria, a minha bichinha, se houvesse laudas. Claro, não dá para colocar um sulfite qualquer e teclar. Para operá-la, deve-se usar laudas, obrigatoriamente. De 20 linhas e 1.440 toques. Brancas como comandos pretos, como as da Folha. Ou com comandos verdes, como as da UEL. Assim manda o Código de Ética dos Jornalistas Já Quarentões e Ranzinzas. Fechado?