quarta-feira, 31 de março de 2010

Ao Mestre, com carinho

Alguém pode estranhar o fato de, até então, não ter escrito nada sobre a morte de Armando Nogueira. E com razão. De todos os cronistas esportivos, é o meu preferido. O outro, Nelson Rodrigues, também já foi. Restam Ugo Giorgetti, Antero Greco e, vá lá, Juca Kfouri. É que mortes desse naipe eu não me sinto à vontade para escrever sobre. Travo. Empaco. É muita responsa. Tudo o que seria dito parece que resvalaria para o óbvio ou, pior, para o piegas. Então, acabo de achar a salvação. Marco Antônio Freire Gomes, que, entre outras virtudes, é pai de Nilo, Alice e Lauro e marido de Valéria, me encaminha uma crônica do Mestre, com o seguinte recado:

Por que eu sei que admira e coleciona. Por que sei que sentiu a perda e sempre vai lembrar. Pode mesmo já ter lido estas entre tantas que bebeu deste notável. Mas na hora em que fiquei sabendo da transferencia dele para outro estádio me lembrei do amigo Fischer.Até a proxima rodada. Abraço MGomes.




México 70
Armando Nogueira
México 70 - E as palavras, eu que vivo delas, onde estão? Onde estão as palavras para contar a vocês e a mim mesmo que Tostão está morrendo asfixiado nos braços da multidão em transe? Parece um linchamento: Tostão deitado na grama, cem mãos a saqueá-lo. Levam-lhe a camisa levam-lhe os calções. Sei que é total a alucinação nos quatro cantos do estádio, mas só tenho olhos para a cena insólita: há muito que arrancaram as chuteiras de Tostão. Só falta, agora, alguém tomar-lhe a sunga azul, derradeira peça sobre o corpo de um semi-deus.
Mas, felizmente, a cautela e o sangue-frio vencem sempre: venceram, com o Brasil, o Mundial de 70, e venceram, também, na hora em que o desvario pretendia deixar Tostão completamente nu aos olhos de cem mil espectadores e de setecentos milhões de telespectadores do mundo inteiro.
E lá se vai Tostão, correndo pelo campo afora, coberto de glórias, coberto de lágrimas, atropelado por uma pequena multidão. Essa gente, que está ali por amor, vai acabar sufocando Tostão. Se a polícia não entra em campo para protegê-lo, coitado dele. Coitado, também, de Pelé, pendurado em mil pescoços e com um sombrero imenso, nu da cintura para cima, carregado por todos os lados ao sabor da paixão coletiva.
O campo do Azteca, nesse momento, é um manicômio: mexicanos e brasileiros, com bandeiras enormes, engalfinham-se num estranho esbanjamento de alegria.
Agora, quase não posso ver o campo lá embaixo: chove papel colorido em todo o estádio. Esse estádio que foi feito para uma festa de final: sua arquitetura põe o povo dentro do campo, criando um clima de intimidade que o futebol, aqui, no Azteca, toma emprestado à corrida de touros.
Cantemos, amigos, a fiesta brava, cantemos agora, mesmo em lágrimas, os derradeiros instantes do mais bonito Mundial que meus olhos jamais sonharam ver. Pela correção dos atletas, que jogaram trinta e duas partidas, sem uma só expulsão. Pelo respeito com que cerca de trezentos profissionais de futebol se enfrentaram, músculo a músculo, coração a coração, trocando camisas, trocando consolo, trocando destinos que hão de se encontrar, novamente, em Munique 74.
Choremos a alegria de uma campanha admirável em que o Brasil fez futebol de fantasia, fazendo amigos. Fazendo irmãos em todos os continentes.
Orgulha-me ver que o futebol, nossa vida, é o mais vibrante universo de paz que o homem é capaz de iluminar com uma bola, seu brinquedo fascinante. Trinta e duas batalhas, nenhuma baixa. Dezesseis países em luta ardente, durante vinte e um dias — ninguém morreu. Não há bandeiras de luto no mastro dos heróis do futebol.
Por isso, recebam, amanhã, os heróis do Mundial de 70 com a ternura que acolhe em casa os meninos que voltam do pátio, onde brincavam. Perdoem-me o arrebatamento que me faz sonegar-lhes a análise fria do jogo. Mas final é assim mesmo: as táticas cedem vez aos rasgos do coração. Tenho uma vida profissional cheia de finais e, em nenhuma delas, falou-se de estratégias. Final é sublimação, final é pirâmide humana atrás do gol a delirar com a cabeçada de Pelé, com o chute de Gérson e com o gesto bravo de Jairzinho, levando nas pernas a bola do terceiro gol. Final é antes do jogo, depois do jogo — nunca durante o jogo.
Que humanidade, senão a do esporte, seria capaz de construir, sobre a abstração de um gol, a cerimônia a que assisto, neste instante, querendo chorar, querendo gritar? Os campeões mundiais em volta olímpica, a beijar a tacinha, filha adotiva de todos nós, brasileiros?
Ternamente, o capitão Carlos Alberto cola o corpinho dela no seu rosto fatigado: conquistou-a para sempre, conquistou-a por ti, adorável peladeiro do Aterro do Flamengo. A tacinha, agora, é tua, amiguinho, que mataste tantas aulas de junho para baixar, em espírito, no Jalisco de Guadalajara.
Sorve nela, amiguinho, a glória de Pelé, que tem a fragrância da nossa infância.
A taça de ouro é eternamente tua, amiguinho.
Até que os deuses do futebol inventem outra.

terça-feira, 30 de março de 2010

Eu sei o que você fez em 1984 - II




Tô na roça, daqui a pouco tem reunião do sindicato, mas dá tempo de postar mais duas fotos de antigamente. Nem imagino o autor delas. Para postá-las, contei com o auxílio luxuoso de Ivo Akio, que as escaneou. Na pressa, nem permiti que ele desse aquele trato photoshopístico. Foi na crua mesmo. O que sei é que foram feitas na república da Paraíba 322. Na primeira foto, estamos eu, Berenice e Dirceu. Um guaraense, dois andradinenses. Dirceu e eu morávamos lá; Berê não saía de lá, seja em visitas esporádicas, seja como presença garantidas nas festas quase semanais que se tornaram famosas em todo o complexo CECA-CCH. Berê retraída, tímida como sempre, até mais do que eu - difícil, hein... Dirceu fazendo macaquices. Pelas vestimentas, estávamos no inverno. Deve ter sido o de 1985. Em 1984, quando chegamos a Londrina, minha mãe colocou na mala uma manta de algodão que meu pai tinha ganho de presente de Benjamin Curi, tradicional plantador de algodão da Alta Mogiana. Para ela, o Paraná era a terra da geada, e o filhinho tinha de ficar bem agasalhado. Pois bem, chegou o inverno de 1984 e... necas. Passou batido. Foi como se não existisse. Ligava para casa e falava: "Mãe, aqui é que nem aí...", referindo-se à tórrida região de Ribeirão Preto. Foi como se o dono do tempo dissesse: "Ah é, é..." Pois no inverno seguinte nós tínhamos que cortar a resistência do chuveiro e deixar a torneira de forma a sair só um filete para que a água descesse minimamente quente. Que frio do caralho! Dirceu Herrero Gomes vive em Maringá há vinte e tantos anos, com a Regina Daefiol, também daqui. Berê engravidou no segundo ano de faculdade e vazou. Está, segundo a Cláudia Romariz, outra conterrânea, em São José do Rio Preto. Na foto de cima, eu com Helder Vilela e Vânia Novelli. Vânia é de Ibitinga, onde hoje mora minha filha, e era a turma 84/1, como nós. Helvil foi incorporado à nossa turma, pelas qualidades que dispunha: bom humor e uma sede industrial. Helvil é de Tamarana, do tempo em que Tamarana era distrito de Londrina. Conheci a casa dele, o seu Messias. Hoje está em Goioerê, e acho que nem está sabendo da presepada que iremos aprontar nesse final de semana. Se alguém puder avisá-lo, tenho certeza de que virá. Vânia é presença garantida, como já deixou claro em e-mails. Está em São Paulo, acho que na área de publicidade. Estava ao lado dela quando virei jornalista de verdade. A parada foi a seguinte. Ao sair de uma aula, no início do terceiro ano, estávamos juntos quando fomos abordados pelo Jogó - um veterano que, anos depois, viria a ter um filho com ela. O fato é que o Jogó veio com um papo de que já havia lido algo meu em um jornal não sei do que - eu dizia que não. Então tinha sido não sei aonde - e eu negava. Até que lá pela quarta ou quinta tentativa ele tascou: "Você quer trabalhar no Paraná Norte?" O famoso PN, produto regional lançado pela Folha de Londrina em 1986 para, mais uma vez, sufocar a tentativa de criação de um segundo jornal na cidade, estava precisando de uma segunda leva de focas depois que a primeira já começava a debandar. Fui, fiquei um mês, até tirei uma foto com a Carla Sehn - que depois publico - mas não rolou contratação porque, segundo o Jerê me comunicou, a direção não havia liberado contratações, embora o jornal estivesse necessitando. Não deu em setembro de 1986, mas aconteceu em janeiro de 1987, quando também levei o Dirceu, que inaugurava ali sua carreira. As duas fotos acima foram feitas na república, como já disse, república das festas. Mas essa é outra história.

segunda-feira, 29 de março de 2010

Eu sei o que você fez em 1984 - I


Certamente fomos ao Bar do Carlão logo depois da aula. Sim, por que, ao contrário, como nos encontraríamos de dia? À tarde era o único período em que nos desgrudávamos. De manhã, aula – para quem conseguisse ir. De tarde, bode. De noite, fim de bode. De madrugada, fervo. Todos os dias. O Carlão era o bar que mais vendia cerveja na cidade. Quarenta grades, em média. Eram ele, o Souza, o Baiano, os caras que movimentavam, fizesse chuva ou sol, o bebum em Londrina. Estamos na parte secundária do L da varanda. Era a parte que dava, meio que de esgueio, ao caixa, ao qual tínhamos acesso pela janela que mal aparece na foto. Ali o gerente do Carlão, que, acho, era o irmão dele, assim como o Eduardo tocou o Bar do Jaiminho a vida toda, fica recebendo contas e comandando a tropa. Eu tava de camiseta, a única calça não-jeans que tive e havaianas – estávamos na aula, claro. Fiquei meio de frente para o fotógrafo, cujo nome ignoro, enquanto a Cláudia Romariz torcia o pescoço para mostrar o sorriso e o Negão Herrero tentava disfarçar a vontade de ficar olhando para aquela que é uma das mulheres mais bonitas que já vi. Dirceu e Cláudia são de Andradina, vieram para o mesmo vestibular e entraram para a mesma turma. Ela, uma das mais novinhas da turma – talvez perca apenas pra Carla Sehn. Ele, uns dois anos a mais, filho de seu Dorival, família convencionalmente diferente, a que tive o prazer de conhecer. O isqueiro branco era meu – só eu fumava ali. Os copos estão cheios – boa hora de tirar fotografia. Cheios de Antártica, presumo. A cidade privilegiava a Skol, que era fabricada na Cervejaria, perto do IBC, ao final da Avenida do Café. Olha a parede. A mesa, novinha. Mas nóis, do interior de São Paulo, sempre preferimos a Antártica. Isso, hoje, soa esquisito, porque a Antártica ficou pra trás, mesmo. A Brahma era a cerveja mais amarga. Antártica, a mais forte. Skol: boa, macia. Tinha muitas porções, no Carlão. Ele ganhava grana na escala da cerveja e nas porções. Se não me engano, Helvil morava ali pertinho, na Pernambuco. Pode até ser no imóvel que viria a ser o Araucana. No mínimo, muito perto dali. Atrás desse muro da Skol ficava o Açougue do Carlão. Ali Helvil, Loyolla e eu comprávamos lingüiça, mandávamos picar, comíamos com limão e tomávamos cerveja e pinga até miar. Daí eu voltava pra casa, na Paraíba 322. Eu e Dirceu moramos lá desde o primeiro dia em Londrina. Mal deixei a mala em casa, chegando de Guará, fui pro Calçadão e, sem querer total, conheci o Dirceu, que procurava um lugar pra ficar e eu disse que lá em casa acho que tinha uma vaga. Ele foi comigo e ficamos cinco anos lá, dividindo república com gente de Odonto, Engenharia, Fisio, Vetê, gente de SP, PR e SC. A república das festas... Ah! Mas isso é tema para as próximas fotos que disponibilizarei aqui durante essa semana de reencontros.

sexta-feira, 26 de março de 2010

Chiquitim


Entre o Natal e o Ano Novo, estava em dúvida se amarrava o burro na sombra ou tirava a vaca do brejo quando resolvi fazer o que não havia feito desde que chegara em Guará-SP para as festas de fim de ano: dei uma passada na Fischer Fértil, ao lado da Câmara, onde meu pai vende sementes e alguns insumos agrícolas nessa terra que já foi a Capital Nacional do Algodão e hoje não passa de uma das muitas Cidades da Cana desse interiorzão paulista. Cumprimentei uns amigos que proseavam na calçada, entrei, tomei um gole d’água e já ia abrindo a Playboy da Sabrina Sato quando entra o Chiquitim.

Figuraça.

As famílias dele e do meu pai se conhecem desde a época de Matusalém. Chiquitim, que nasceu Francisco, virou Chico e depois Chiquitim, tem 14 filhos. “Nunca ninguém passou fome em casa”, ouvi ele dizer, enquanto observava um vereador folgado jogando uma bituca no meio-fio – a impressão é de que em alguns locais a consciência ambiental só vai chegar no quarto milênio depois de Cristo.

Chiquitim entrou no escritório pedindo ajuda para duas crianças da rua dele que tinham sido atropeladas no dia de Natal pelo carro da prefeitura que passou jogando bala pra molecada. E, pau pra toda obra, logo foi questionado pelo meu pai se conhecia algum veneno para morcegos, que andam infestando o sítio na Grota. “Só existe um, e eu que inventei”, vaticinou, ligeiro, atropelando as palavras, bem ao estilo caboclo. Segundo ele, a única coisa que espanta morcego é naftalina – que ele pronuncia sem o efe. Evidente que ele quis dizer que inventou não a naftalina, mas a utilização dela como tal.

Terminada a receita para afugentar os únicos animais mamíferos capazes de voar, aproveitei a deixa para checar com o dito cujo a história que ouvira dias antes numa roda de cerveja sobre uma antiga apresentação dele na TV – um desastre, segundo as más línguas.

Figura carimbada nos botecos, Chiquitim canta, digamos, muito mais ou menos. Já o alertaram sobre isso um milhão de vezes, mas sempre quis porque quis se apresentar “na rádia”, até que, de tanto insistir, conseguiu coisa melhor: uma brecha num programa sertanejo da TV Record de Franca, isso há mais de 20 anos, época em que, na esteira de Milionário e José Rico, o Trio Parada Dura – Creone, Barrerito e Mangabinha – emplacava um sucesso atrás do outro.

Combinaram que cantariam “Grão de areia”, e lá se foram ele e o parceiro Betão para Franca. Um sanfoneiro da TV ajudava os calouros. O programa era ao vivo. Sentados à espera da vez, de cabeça feita (“tomei oito pingas”), Chiquitim já começava a perder a paciência com Betão, que a toda hora o cutucava para ele não se esquecer do primeiro verso da música escolhida: já fui um grão de areia e todos pisavam em mim... “Eu sei, eu sei, diacho!”, ele repetia ao parceiro. “Ocê que vai se atrapaiá de tanto pensar nisso, sô.”

Chegada a hora, entraram no estúdio, onde havia vários monitores mostrando a dupla em diversos ângulos. Chiquitim olhou para um deles, se viu na tela da tevê, decerto se achou o bicho da goiaba e, quando o sanfoneiro puxou o fole, em cima do já fui um grão de areia entoado pelo parceiro ele tascou sou um homem de pedra que não tem mais compaixão – primeiro verso de outro grande sucesso do Trio Parada Dura na época, “Homem de pedra”.

Resultado: cantaram uma música sobre a outra durante mais de um minuto, até que engrenaram a letra certa de “Grão de areia” e foram até o final e, com isso, talvez tenham sido a única dupla na história daquele programa que cantou uma música e meia. Da TV, Chiquitim já desistiu, mas, dos botecos e da naftalina, ainda não.

domingo, 21 de março de 2010

A noite em que Londrina aplaudiu Oscar

De madrugada, à espera do dia clarear para ir na feira da Alagoas comprar queijo fresco para comer com goiabada cascão, e depois ver o basquete no Mãe de Deus, vou à caça de um texto que fiz em novembro de 2008 sobre uma palestra de Oscar Schimidt a pequenos empresários num evento do Sebrae, para o qual eu fiz assessoria de imprensa. Achei. É um texto pouco convencional para uma assessoria de imprensa. Talvez valha a pena ler de novo. Ei-lo:





A noite em que Londrina aplaudiu Oscar

Ex-jogador emociona platéia com seu jeitão boa-praça e suas histórias de vida

O que a trajetória de um jogador de basquete tem a ver com a saúde de uma empresa? Será que a rotina de um atleta pode ter alguma serventia para o dia-a-dia de um empresário? Aos 50 anos de idade, 32 deles em quadra, após 49.737 pontos assinalados em 1.615 jogos e uma lista interminável de títulos e recordes nacionais e internacionais, o agora palestrante Oscar Daniel Bezerra Schmidt acredita que sim.

“É necessário, primeiro, visão, ou seja, definir um objetivo. Em segundo lugar, decisão: você não pode fugir da responsabilidade, a vida é feita de decisões. Em terceiro, time: você pode, vez ou outra, ganhar um jogo sozinho, mas um campeonato você só ganha se tiver uma boa equipe. Depois, obstinação: não fui o melhor jogador do planeta, como havia planejado, mas treinei como ninguém, mais que qualquer um, e me orgulho disso. E, por fim, paixão: não basta gostar de basquete, tem de ser apaixonado por ele. Imagino que no mundo corporativo deva ser a mesma coisa.”

Foi essa a resposta dada por Oscar a um grupo de jornalistas de Londrina que o entrevistou no camarim do Teatro Marista, pouco antes da palestra que fez a cerca de mil pessoas, quinta-feira à noite, por conta da Semana da Pequena Empresa, promovida pelo Sebrae/PR. Naquele encontro com a imprensa, além de reafirmar os conceitos que o fizeram vencedor, o maior ídolo do basquete brasileiro falou sobre o que mais gosta e entende: basquete.

Criticou a conduta da Confederação Brasileira da modalidade, defendeu o fortalecimento de uma liga de clubes independente e defendeu-se, enfaticamente, dos momentos conturbados que viveu na cidade há uma década, por conta de decisivos confrontos dos times que defendia com a equipe local, pelos Campeonatos Brasileiros da época.

Mais de uma vez ele atuou na quadra de um Ginásio Moringão lotado por uma torcida hostil – o então técnico londrinense Enio Vecchi chegou a declarar que Oscar seria recebido a bala na cidade. Mais de uma vez ele foi xingado em coro por 8, 12, 15 mil pessoas, por supostos favorecimentos da arbitragem. Em 1997, 1998, era inimaginável Oscar Schmidt andando pelas ruas de Londrina sem que estivesse protegido por um batalhão de seguranças. Se deixasse o hotel e fosse a alguma loja do Calçadão, por exemplo, muito provavelmente algum maluco desrespeitaria seus 2,05 metros de altura.

Foram momentos em que a cidade verdadeiramente odiou Oscar Schmidt.

Se, porém, ainda havia algum resquício de animosidade entre o londrinense – que viveu apaixonadamente aquela fase áurea do basquete local, nas vitórias e nas derrotas – com o homem que jogou cinco Olimpíadas, tudo foi dissipado quando ele adentrou o palco do Teatro Marista. Foi ruidosamente aplaudido por uma platéia composta por empreendedores, mas também, muitos estudantes, professores universitários e curiosos em geral.

Em cena, Oscar deu um show. Simpático, exibia seu uniforme oficial: tênis, calça jeans e uma camiseta da seleção brasileira de futebol, com seu nome e o número 14 nas costas. Arrancou gargalhadas com suas fotos antigas e suas histórias de vida, recheadas de expressões e palavrões que fizeram parte de sua rotina de jogador.

Em várias ocasiões, deixou a platéia emocionada – em especial quando relembrou, sempre com a ajuda de imagens, a conquista do Pan-Americano de 1987 sobre os então imbatíveis EUA em plena Indianápolis e, no último capítulo da palestra, com a história do professor de educação física Hugo da Costa, que sagrou-se vice-campeão colegial do Mato Grosso do Sul com uma equipe de garotos carentes que carpiram a própria quadra num terreno baldio de Ponta Porã. Ao final, foi aplaudido de pé, por vários minutos. Sentado no beiral do palco, exerceu seu lado boa-praça, atendendo inúmeros pedidos de autógrafo e poses para fotos.

Uma noite inesquecível, em que a cidade verdadeiramente apaixonou-se por Oscar Schmidt.

Achamos o Loyolla!

Festas como essa que a Edra está organizando para a Semana Santa em Londrina, "Eu sei o que você fez em 1984", serve para isso também: achar velhos amigos, sobre os quais as pessoas perguntam e você nunca sabe o que responder, senão a última e surruda informação seguida de um "ah, mas isso faz tempo que eu ouvi, viu..." No troca-troca de e-mails que foi deflagrado pela festa, Rodrigo Garcia Lopes me indica o e-mail de uma amiga, que me fornece o endereço do sujeito, eu escrevo sem muita esperança - Rodrigo avisara: ele quase nunca responde e-mail - e eis que o cidadão reaparece. Carlos Alberto Diez Loyolla - bendito ao fruto que aparece na foto do Buraquinho, aí embaixo - informa que está em Guaíra, a terra natal, está casado, tem uma filha de quase oito anos, é funcionário "púbico" - como ele destacou - na Secretaria Municipal de Fazenda e toca a lanchonete que, além de sucos e coxinhas, fornece alimentação para empresas. No primeiro e-mail disse que morria de saudades de todos, mas que seria muito difícil vir para a festa, "talvez em maio". No segundo, já sinalizou a possibilidade de estar presente. Neste sábado, em cerimônia na UEL, encontrei Pedrinho Livoratti, que disse que ligaria para o figura a fim de convidá-lo para ficar na casa dele. "Pô, véio, o Jaca é meu chapa". Nas repúblicas, Loyolla era Jacaré. Pedrinho era nosso calouro. Tomara que o convite dele viabilize a vinda de Lolô. O Cemitério não pode ficar sem umas figuras dessas. Pelo menos nos dias 2, 3 e 4 de abril.

sábado, 20 de março de 2010

Meia-nove

Em 1992 meu pai fez 51 anos. Liguei pra ele já era quase meia-noite. Ensaiei ligar de manhã, planejei pra tarde, achei que de noite seria melhor, me enrosquei numa parada aí e fui me tocar de que ainda não havia ligado pelo aniversário dele era 11 e tralalá. Sorte que havia um telefone na mesinha de cabeceira. Liguei, pedi perdão, fiz os cumprimentos de praxe e, ao final, motivado talvez pela quase deselegância, brinquei com o velho: "51, boa idéia, hein, pai..."

Hoje ele fez 69.