quarta-feira, 9 de março de 2011

O português Jaime e seus isqueiros recarregados

(Publicado na seção Boas Histórias, do site da Sercomtel)



Contrariando as piadas de português, há em Londrina um “patrício” que, além de ótimo caráter, é observador e criativo. Pois só com características assim seria possível a Jaime Santos Mendes Gomes ter começado recarregar isqueiros descartáveis. E fazer disso uma significativa fonte de renda.

Das sempre frutuosas conversas com o saudoso doutor Turetta, protético que passava em seu bar para um copo de cerveja ou de vinho ao final do dia, Jaime extraiu a prática que o tornou o primeiro recarregador de isqueiros BIC do Brasil.

Curioso, abria e estudava aqueles isqueiros que ele e clientes usavam até acabar o gás. “Ficava mexendo, mexendo, mexendo... Queria arrumar um jeito de carregar de novo”, conta Jaime, português de Fátima – chegou ao Brasil em 1954, com três anos de idade.

A família aportou primeiro em Maringá, que, naquela época, tinha apenas sete anos de fundação. Em 1968, desembarcaram em Londrina. No dia 1º de abril de 1972, Jaime abriu seu primeiro bar no Centro Comercial, o “Lanches Cinelândia”, com acesso pela rua Souza Naves.

Há alguns anos, no mesmo Centro Comercial, ocupa um espaço ao lado, de frente para a rua Piauí e a Concha Acústica, onde durante muitos anos funcionou o Bar do Lema, tocado por Jorge Kadozawa e família.

Durava mais
De tanto investigar, Jaime descobriu uma maneira de recarregar os tais isqueiros, cuja propaganda falava que acendia “três mil vezes ou mais”. Passou a recarregá-los primeiro por meio de pequenos tubos de gás; depois, através dos tradicionais botijões de cozinha, de 13 quilos.

“Os meus isqueiros duravam bem mais”, garante Jaime. Pelas contas dele, a indústria imprimia uma carga de aproximadamente 70%, enquanto a recarga passava sempre dos 90% da capacidade do isqueiro.

A única desvantagem era o odor que o isqueiro reutilizado exalava, ou seja, o cheiro próprio do gás butano, que é daquele jeito mesmo, meio “fedidinho”, justamente para servir de alerta em caso de vazamento nas cozinhas de casas e restaurantes.

Convenhamos: para quem fuma 20, 30, 40 ou mais cigarros por dia, trata-se até de uma desvantagem extremamente pequena, praticamente imperceptível.

A desvantagem, aliás, parava por aí. O preço era o principal contraponto. “Cobrava a metade do que valia o original”, conta Jaime, que desempenhou a atividade de 1974 até os primeiros anos da década de 90. “Dava para pagar a água e a luz do bar e ainda sobrava algum.”

Lição
Jaime nem imagina quantos milhares de isqueiros chegou a recarregar, mas, além de muitos clientes locais, aparecia gente de cidades da região – Assai, Uraí, Porecatu – com quantidades industriais. “Tinha um motorista de ambulância que juntava 40, 50, e quando vinha para Londrina aparecia por aqui para eu encher tudo”, diz.

Nesses tempos de necessária vigilância ambiental, com legislações cada vez mais rigorosas em relação à destinação de resíduos, o português Jaime já dava lições de ecologia há quase 40 anos.

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