quarta-feira, 15 de dezembro de 2010

Octa

(Publicado no Jornal de Londrina desta quarta, 15/12)

Os três diabinhos se reuniram no Bar Celestial para acompanhar o jogo do Inter no Mundial. A bola ainda não estava rolando em Abu Dabi quando Luís César resolveu provocar Moitinha.

– Até que enfim ganharam alguma coisa no futebol. Achei que iam passar o ano do Centenário só com o título da Fórmula Truck.

– Tá me zoando, bambi?

– Ué, ganharam o Torneio Cidade de Londrina. De master, é verdade, mas ganharam, pô. E em cima do Parmera, hein...

Moitinha já ia soltar um palavrão daqueles dignos de cartão vermelho quando Bracciola chegou. Soltou um “e aí?” protocolar, acomodou-se e ficou em silêncio, lendo uns papéis que acabara de imprimir de um site – sim, no purgatório também tem computador e internet.

E em silêncio ficou. Lia e relia. Só dava um tempo na hora de entornar um gole generoso de cerveja. Aquele ritual estava deixando os colegas tensos. O são-paulino tentou quebrar o gelo.

– O que você tá lendo aí, porcão?

– Nada não.

E assim foi até a metade do segundo tempo. Seis garrafas vazias na mesa. Com a bexiga cheia, Bracciola pegou os gargalos de três cervejas em cada mão, deixou-as no balcão e foi tirar água do joelho. A papelada ficou virada de cara para a mesa, com a chave do carro em cima.

Moitinha não se agüentou. “Vamos ver o que esse porco imundo tá lendo.” Esticou o braço, alcançou os papéis. Luís César arrancou um para ele. Praguejaram ao mesmo tempo.

– Ai, cacilda!

Era a cópia de uma matéria de um portal de notícias. A manchete: “CBF iguala Robertão e Taça Brasil a Brasileiro. Santos e Palmeiras viram octas”. Em outra página, o novo ranking de títulos nacionais.

Passaram a desdenhar daquelas conquistas, apontando discrepâncias e contradições. Se fosse o Timão o favorecido – argumentava Moitinha – estaria todo mundo caindo de pau. “Quem vive de passado é museu”, vaticinou o tricolor.

Ainda estavam roxos de raiva quando viram o colega voltando do banheiro. Silêncio geral. Na mesa, ninguém mais falava nada. Bracciola então notou que os papéis talvez não estivessem exatamente do jeito que deixara. No final, Inter 3 x 1 Mazembe. Moitinha e Luís César falaram que tinham que ir pra casa. Bracciola disse que ia tomar mais umas oito.

quarta-feira, 8 de dezembro de 2010

Chorintians

(Publicado nesta quarta-feira, 8/12, no Jornal de Londrina)

No domingo, a fim de secar mais de perto o Curíntia, o diabinho Bracciola pediu licença ao Divino e desceu até Londrina. Chegou cedo e começou a peregrinação pelo Vale do Rubi, onde acompanhou uma pelada daquelas de matar qualquer um de risada. Seguiu a turma de peladeiros até o bar do Quinim.

Com meia dúzia de Brahmas na telha e o estômago roncando, já passava das três da tarde quando Bracciola saiu andando pela Nilson Ribas, pegou a Tiradentes, seguiu a JK, quebrou à esquerda, atravessou a Leste-Oeste e acabou caindo num inferninho da Duque.

Lá, acompanhou a rodada decisiva numa TV de 14 polegadas e acalmou o estômago com duas coxinhas e um quibe com cara de anteontem.

Consumado o título do Flu, ficou em dúvida se ia até o Moringão ver as lutas do Londrina Fight – ganhara convite do Lelei, com quem puxara conversa nos Bancários – ou ficava por ali mesmo. Já meio zureta, acabou ficando e, pra comemorar, pediu uma dose de Velho Barreiro.

A mulata com pneuzinhos salientes – que ele tinha desdenhado quando entrara no bar – ganhara, àquela altura, contornos de princesa. Bracciola passou a olhar de esguelha para a mulata, mas agora era ela quem o desdenhava. E logo apareceu o motivo: um sarará com cara de pedreiro – e em cuja dentição faltavam o centroavante e o meia-esquerda – interpelou-o:

– E aí, branquelo, tá querendo o que co’a minha nega?

O sujeito vestia uma camiseta do Curíntia, daquelas do tempo da Kalunga, a 10 com o nome do Neto atrás. Bracciola achou que era melhor mudar de ares. Passara a semana escutando choramingo dos corintianos por causa da “entregada” para o Fluminense.

O consolo era que, ao sequer terem ganhado do Goiás, os corintianos pelo menos parariam de culpar o Parmera por suas mazelas. Daí sua cara de espanto quando o sarará voltou à carga:

– E ainda por cima ocê tem cara de parmerense. Perdero pro Cruzeiro só pra deixá nóis em tercero.

Ah, não, pensou Bracciola. Aí já é demais. Levantou-se, tirou água do joelho, acertou a conta, entornou mais uma dose, passou incólume pelo corintiano, chegou à calçada, olhou para a direita, aprumou o passo e desceu a Duque de Cachaça cantando.

– Salve o Chorintians / O mais chorão dos mais chorões / Eternamente / Dentro dos nossos coraçõeeessss...

Brincadeiras e mancadas do garçom Nelson

(Publicado na seção Boas Histórias, do site da Sercomtel)






Nelson Faneco mora no conjunto São Lourenço. Tem 71 anos – cinco a menos que Londrina, levando em conta a data da emancipação. Nasceu “na fazenda do Mister Thomas”, onde hoje é o conjunto Lindóia, zona leste da cidade. Seus pais vieram de Catanduva (SP). O pai trabalhava no setor de Costumes da Polícia Civil, checando livros de entrada de hóspedes em hotéis e pensões daquela Londrina pioneira.

Talvez isso explique o gosto de Nelson por lugares movimentados como o Restaurante Rodeio, onde trabalha desde janeiro de 1969. Seu estilo peculiar de atendimento o faz conhecido por todos. Na área central de Londrina, não há uma mosca que não o conheça.

Nesse tempo todo de Londrina e de Rodeio, Nelson Faneco colecionou amigos, homenagens – é, inclusive, cidadão honorário – e histórias.

Maguila
Nelson gosta de lembrar quando o pugilista Adilson Maguila Rodrigues (nosso maior peso-pesado, apesar do queixo de vidro) esteve na cidade para enfrentar o norte-americano Mike White, que de white não tinha nada – era um respeitável afrodescendente de dois metros e cacetada, que depois daquela luta no Moringão, em 1984, foi jogar basquete no Corinthians.

Na noite anterior à da luta, provavelmente hospedados que estavam no hotel Bourbon, os dois contendores foram jantar no Rodeio. Ficaram em mesas distantes e se trataram friamente. Nelson lembra que White jantou um filé. Maguila, dois – com sobremesa. No dia seguinte, depois da luta, banho tomado e tudo, voltaram ao Rodeio para jantar, já tardão da noite. “Foi engraçado vê-los sentados nas mesmas mesas, com uma diferença: as duas caras amassadas de tanta pancada”, diz Nelson.

Moraes Moreira
Nelson conta também um mico que pagou no tempo da ditadura. Havia três caras que todos os dias, religiosamente, comiam no Rodeio. Sentavam-se na mesa 11, do canto. De repente, os rapazes sumiram. Dez anos depois, reapareceram. Os três entraram no Rodeio, sentaram-se à mesa 11. Nelson, agitado como sempre, ao atendê-los, brincou: “Vocês estavam presos, por acaso?” Quase. Eram três ativistas políticos que passaram uma década exilados.

Situação semelhante ele viveu quando “um cara barbudo, cabeludo, de havaianas no pé” sentou-se à mesa 5 e pediu, no Rodeio, o que poderia ter pedido em qualquer espelunca da cidade: arroz, feijão e ovo frito. Ressabiado, Nelson encostou-se no balcão do caixa e cochichou para Arlindo, o dono: “Não vou servir aquele cara ali não. Não passa de um mendigo”. Arlindo esticou o pescoço e devolveu: “Você não sabe quem é? É o Moraes Moreira, Nelson”.

Jô Soares
O famoso apresentador foi alvo de brincadeira de Nelson quando fez um show em Londrina em meados da década de 80. Jô chegou para jantar, com sua trupe, já perto da 1h30 da madrugada e, para ele, pediu filé na manteiga completo.

Nelson não se fez de rogado: depois de consultar um dos amigos do apresentador, que lhe deu sinal verde, aproximou-se de Jô e, em pé, passou a falar de uma disfunção orgânica da qual sofria. Contou que aquilo lhe atrapalhava muito, que havia consultado vários médicos e nada. Depois de muita lenga-lenga, perguntou a Jô se ele sabia “o que é bom para urina solta”.

Enquanto aguardava a resposta, deixou cair feijões na perna de Jô, o que, segundo ele, dá a impressão, para quem é a vítima da brincadeira, de urina sendo despejada. “O Jô se assustou, como todo mundo se assusta, mas acabou caindo na gargalhada”, afirma Nelson. “Viu, fio?”

quarta-feira, 1 de dezembro de 2010

História de torcedor: Carlos quer desenterrar bandeira do Palmeiras

(Publicado na seção Boas Histórias do site da Sercomtel)




A trágica derrota do Palmeiras para o Goiás na quarta-feira dia 24 de novembro, em pleno estádio do Pacaembu lotado, foi mais uma ducha d’água fria na torcida. Afinal, o Verdão vai terminar a década sem ter conquistado um título expressivo.

Pior é que o time de Felipão só precisava empatar em casa com uma equipe que já estava rebaixada para a Série B do Campeonato Brasileiro. E, ainda por cima, saiu na frente do placar. E conseguiu tomar a virada, para desespero de 37 mil incrédulos torcedores – entre eles o garotinho de oito anos que apareceu chorando na TV.

Nada, porém, parece abalar o lado espirituoso desta gente – como mostra esse caso ocorrido em Assaí, Norte do Estado, segundo o relato de Silvio Antônio Bueno (foto), que há nove anos toca uma pastelaria na avenida Rio de Janeiro, área central de Londrina.

A família Fuzari é formada por descendentes de italianos que há muito tempo vivem na região de Assaí e Cornélio Procópio. No início do ano passado, morreu seo Lázaro, “palmeirense doente”, na definição de Sílvio, “daqueles que gostam de ver jogo sozinho, sabem a escalação de equipes antigas do Palestra Itália e são capazes de sair na briga se o Parmera for destratado”.

Não só seo Lázaro era fanático pelo Palmeiras. A paixão é comum em toda a família. Durante o enterro, realizado no cemitério municipal de Cornélio, Tiago, jovem escriturário, neto de Lázaro, colocou uma pequena bandeira, uma flâmula, do Palmeiras junto do avô.

Carlos, dono de restaurante em Assaí, desconfiado como todo bom palmeirense, cochichou com alguém do lado: “Isso não vai dar certo”. Outro parente, mais zombeteiro, ainda brincou: “Vô, não vai enterrar o Palmeiras junto, hein...”

O fato é que, desde então, o Palestra só colecionou fracassos. No ano passado, sob o comando de Muricy Ramalho, hoje no Fluminense, liderou boa parte do Campeonato Brasileiro, era apontado como favorito disparado ao título, mas “amarelou” na reta final e nem para a Libertadores se classificou.

No primeiro semestre deste ano, fez campanha pífia no Paulistão e foi desclassificado prematuramente da Copa do Brasil. No intervalo estabelecido para a Copa do Mundo, na África do Sul, acertou a contratação de Luís Felipe Scolari, campeão mundial com a seleção em 2002 e comandante da campanha vitoriosa do Palmeiras na Libertadores de 1999.

Para os palmeirenses, chegara a hora do clube voltar a conquistar título, ainda mais depois que a diretoria trouxe de volta o atacante Kleber e o habilidoso meia chileno Valdívia.

Com campanha irregular no Brasileirão, Felipão decidiu priorizar a Copa Sul-Americana, que dará ao campeão vaga na Libertadores do ano que vem – grande objetivo do clube para 2011. O time chegou à semifinal e, mesmo apoiado maciçamente pela torcida, e tendo vencido o Goiás no primeiro jogo, em Goiânia, “surtou” ao levar o gol de empate em São Paulo e acabou derrotado.

Para o filho Carlos, tão fanático quanto o pai Lázaro, só resta uma alternativa: “Vamos desenterrar o caixão e arrancar a bandeirinha de lá”, disse ele para a esposa, que deu de ombros. “Isso é coisa de louco”. Mas tem gente em Assaí e Cornélio que não duvida muito disso não.

No boné

(Publicado no Jornal de Londrina desta quarta, 1/12)

À espera do Moitinha, Luís César e Bracciola discutiam sobre o que iam conversar até a chegada do corintiano, na sagrada reunião das terças à noite. Haviam matado três cervas e dois espetos com farofa e molho verde, especialidade do tio Mário, que àquela altura do campeonato vez ou outra passava resmungando pela mesa dos amigos diabinhos, já disposto a fechar as portas e descansar os ossos.

Luís César, absolutamente conformado com o ano meia-boca do São Paulo, sugeria o assunto. E Bracciola, azedo por mais uma temporada trágica do Palmeiras, não dava muita trela.

– Eleições no LEC?

– Vamos ver no que dá.

– Vôlei na Superliga!

– Quando o time entrosar, engrena.

– Futsal.

– Trombamos com um osso duro. O Guarapuava joga muito.

– Barça cinco, Real zero.

– Vixe, que sapatada, hein...

– Propina pro Ricardo Teixeira.

– Grande novidade...

– Sei lá, venda da Garcia, censo do IBGE, Complexo do Alemão, Conferência do Clima, vamos falar de alguma coisa.

– Na verdade, tô doido para saber se o Moitinha usou verde domingo...

– Mesmo que tivesse usado você sabe que ele não falaria nem morto.

– Aposto que ele usou. Não foi só na Duque que viram ele não. Na Sergipe também. O Silvio da pastelaria viu ele perscrutando umas lojas por lá.

– Percrus o quê?

Nisso, Moitinha chegou. “Entregaram, né?”, foi logo desabafando, olhando torto para o palmeirense. “Lá se faz, lá se paga”, rebateu Bracciola, sem esconder um sorrisinho sarcástico, enquanto já elocubrava alguma maneira de arrancar do colega a confissão de que teria usado alguma peça de roupa verde como superstição para ver se o Parmera arrancava pelo menos um empate do Flu, como fora sugerido por um pai-de-santo do Cincão.

Instiga daqui, arrisca dali, e nada. Até que Bracciola percebeu que Moitinha usava o mesmo boné com o qual fora visto no domingo todo. Desconfiado, o palmeirense arrancou o boné da cabeça do corintiano, observou todos os detalhes e arrematou:

– Ahá, é verde por dentro.

– É pra torcer pro Guarani, seu porco imundo.

Atrás do balcão, tio Mário suspirou. Aquela conversa ia longe...

Em boa companhia


Foto de Gabriel Teixeira mostra o bonitão aqui com Andrea Monclar e Claudia Romariz, na festa Top de Marcas 2010, no buffet Planalto, dia 25. Eu e Fábio Cavazotti produzimos a revista Top deste ano. Monclar aniversariou dia 2 e, no último sábado, reunimos amigos comuns, em casa, para dar conta de um barril de 30 litros. Na festa do Top de Marcas teve show solo de Guilherme Arantes e a presença da Miss Paraná e de um atriz global de nome complicado. Foi muito legal ter produzido a revista do Top porque, acima de tudo, foi mais tampo bom dos vários que, felizmente, fizemos e estamos fazendo neste último trimestre do ano, o que nos dá boas perspectivas para 2011 quanto ao futuro da Tangará Comunicação. Nesta quarta em que eu aniversario, já antecipo boas festas e feliz ano novo para todos.

quarta-feira, 24 de novembro de 2010

Sacrifício

(Publicado nesta quarta, 24/11, no Jornal de Londrina)

“Pra começo de conversa”, discursou Moitinha assim que adentrou o Bar Celestial, de pé, voz exaltada, dedo em riste, o semblante enfezado em contraste com os olhares sádicos de Bracciola e Luís César, “quero deixar bem claro: pro Parmera eu não torço!”

E já empinou a carroça pra cima do colega são-paulino, que exibia ar de plena satisfação desde que seu time perdera para o Flu e arrancara o Corinthians da liderança. “Tá rindo de quê, bambi?”, atacou o corintiano. “Tudo bem, vocês queriam perder, e perderam. Mas tinha que ser de quatro?”, arrematou, sentindo-se quase vingado.

Primeiro a ter chegado ao boteco para a sagrada reunião semanal dos diabinhos, realizada desta vez na segunda à noite, Bracciola não deu tempo para o tricolor contra-atacar. O palmeirense tratou logo de por as cartas na mesa. “Tão dizendo aí que só tem um jeito do Curíntia ganhar esse campeonato...”

E ficou em silêncio, conferindo as unhas, esperando a pergunta óbvia que resistia em sair da boca do corintiano. “Quer saber não?”, cutucou Luís César. Contrariado, as veias do pescoço explodindo, Moitinha, muito a contra-gosto, cedeu: “Desembucha, seu porco imundo!”

Bracciola começou então a desfiar o 171, na maior calma, como se contasse uma piada de mineiro. “Então, tem um corintiano amigado com a prima de uma colega da minha irmã que ouviu dizer que um pai-de-santo lá do São Jorge falou pra um pedreiro que aparece por lá de olho na vizinha que...”

Moitinha destemperou: “Deixa desse enrolation e fala logo!” Bracciola: “Enfim, o cara disse que pro Parmera segurar o Fluminense só se vocês vestirem verde”. Moitinha: “Nunca que o Curíntia vai usar verde no uniforme”. Bracciola: “Não é o time. É a torcida”.

Diante do corintiano estupefato, sem reação, de tanta raiva, o palmeirense prosseguiu: “Não precisa ser o uniforme completo do Parmera. Pode ser qualquer pedaço de pano, uma fitinha, qualquer coisa verde. E nem precisa aparecer. Pode ser por dentro da meia, do calção, embaixo do boné, mas tem que usar no domingo inteiro, da hora que pula da cama até a meia-noite”.

“Conversa fiada”, vaticinou Moitinha que, dizem as más línguas, foi visto na terça-feira à tarde rondando uma loja de tecidos na Duque.

quarta-feira, 17 de novembro de 2010

Dupla jornada

(Publicado nesta quarta-feira, 16/11, no Jornal de Londrina)


Moitinha, Bracciola e Luís César já tinham esgotado o repertório pró e contra o pênalti sobre Ronaldo – sem, evidentemente, chegar a qualquer consenso sobre o lance que definiu a vitória sobre o Cruzeiro e pôs o Corinthians na liderança do Brasileirão – quando alguém passou rente à mesa deles esfregando as mãos. O sujeito transpirava expectativa.

“É amanhã, é amanhã”, repetia o cidadão, agora já de cotovelo fincado no balcão, enquanto Tio Mário, com aquele jeito sempre desconfiado, dirigia-se ao freezer para servir uma gelada ao freguês. “É amanhã que o bicho vai pegar, meu bom Mário”, complementou, dirigindo-se ao dono do Bar Celestial e, ao mesmo tempo, atiçando a curiosidade ao redor.

Na mesa dos três diabinhos, a aposta passou a ser que assunto seria aquele que, ontem à noite, deixara o sujeito tão pilhado em relação a esta quarta-feira de meu Deus. “Goiás x Palmeiras, claro!”, arriscou Bracciola, para o consentimento surdo dos outros dois.

A partir daí, a semifinal da Copa Sul-Americana dominou o converseiro. Na opinião de Luís César, o Goiás fará, em casa, um resultado tão elástico que até dispensaria o jogo de volta. “Vocês andam tremendo no Serra Dourada”, afirmou, lembrando dos últimos fracassos palmeirenses na capital goiana.

“Que tremedeira o que...”, reagiu Bracciola. “Com o Felipão não tem dessa não”, ele estufou. “Vamos eliminar os caras e deixar eles brabos para tirar o título do Curíntia”, acrescentou, se referindo à última rodada do Brasileiro, quando o Timão visita o Goiás. “Já esqueceu de 2007?”, cutucou o palmeirense, ressuscitando o rebaixamento corintiano.

Os três amigos estavam no auge das provocações quando, de saída, o sujeito que atiçara a curiosidade deles comentou com o pessoal da mesa ao lado: “Passa lá no barraco, tigrada, pra gente ver Neymar e Ronaldinho”.

Foi daí que, entretidos com o pênalti no Gordo e o jogo do Parmera, os três amigos se tocaram de que, às três da tarde, direto do Catar, que anda querendo sediar o Mundial de 2022, tem Argentina x Brasil. Depois de alguns segundos de silêncio sepulcral, a turminha acordou do transe.

– Lá em casa?

– E o Bar Brasil?

– Será que abre?

quarta-feira, 10 de novembro de 2010

O grupo de pagode que nasceu de uma piada


(Publicado na seção Boas Histórias do site da Sercomtel)


Consta que certa madrugada a dona de uma pensão, já velhinha, quase cega, ouviu barulho no corredor, foi ver o que era e deparou com um vulto. Sabendo-se inferiorizada fisicamente, planejou atacar o ponto fraco do suposto malandro. Na verdade era o Beto Mudinho que, tomado de sede, resolvera ir até a geladeira. Mas, para a velhinha, não passava de um ladrão. Eis que a indefesa senhora foi direto nas partes baixas do sujeito, numas de não dar chance de reação. Apertava com vontade, mas o cara não dava um pio. Apertava mais, e perguntava: “Quem é?”. Nada de resposta. Apertava mais e perguntava de novo. Diante do silêncio, apertou com raiva o mais que pode e intimou: “Quem é?” Tanto apertou que o sujeito arrumou forças não se sabe de onde e balbuciou baixinho: “É o Beto Mudo”.

A velhinha que fez o mudo falar motivou a criação de um dos grupos de samba mais simpáticos da história de Londrina. Daquela velha piada, contada numa tarde qualquer numa concessionária de veículos, nasceu Os Beto, que está perto de completar uma década de vida, de muito samba e muita história.

Foi lá na concessionária que Edmir Massi e Marco Gomes se conheceram. Depois que Edmir, não se sabe por que, disse que tocava cavaquinho, Marquinho completou: “Eu toco violão”. “Então aparece amanhã”, propôs Edmir. “Vai ter um happy hour aqui.”

Pronto: estava formado o núcleo do grupo que, hoje, contabiliza cerca de 500 apresentações em mais de 80 locais diferentes – de bares toscos a requintadas festas de aniversário, de festas populares (como a do Trabalhador, em Arapongas) a reuniões de empresas, passando por eventos tradicionais como a Oktoberfest de Rolândia, o Femucic de Maringá e a Expo-Londrina.

O grupo começou a crescer ali mesmo, naquele happy hour da Metronorte. Tocando no improviso puro, a dupla agradou a rapaziada, o que levou o eufórico Edmir a lembrar-se de que tinha um amigo que toca pandeiro. Eis que Devancir Dias juntou-se à trupe, levando a esposa Inês e a filha Érica, com quem dançava de dar inveja nos momentos em que descansava da percussão.

Pelos bares da vida
O trio passou a se apresentar em bares de amigos e conhecidos, como o Bar do Teixeira, na Duque de Caxias, e principalmente no Tio Mário, ponto boêmio tradicional da Vila Ipiranga que o jornalista e ator Apolo Theodoro reconstruíra na Casa do Jornalista. “Ali foi nossa plataforma de lançamento”, lembra Marquinho Gomes.

Logo na primeira apresentação, na pré-inauguração do Tio Mário, conheceram Horácio Lapa, tocador de timba, que imediatamente se incorporou ao grupo. No início, tocavam na raça, à capela, no gogó – até que perderam a vergonha e foram adquirindo caixas amplificadas, retornos, microfones.

“Para nós era um hobby; tocávamos para nos divertir”, lembra Edmir. “A maneira da gente tocar, fazendo brincadeiras, tocando o que o público desejava ouvir, logo criou um empatia grande, que é a nossa marca até hoje.” E dá-lhe Zeca Pagodinho, Cartola, Noel, Adoniran, Caymmi, Benjor.

Irreverência
A irreverência, de fato, é a marca registrada d’Os Beto, como comprovam os títulos das duas composições próprias do grupo: “Tratado de paz” – que tradicionalmente levanta a galera – e “Canto p’a Deus, canto p’a God”, um trocadilho sonoro entre a palavra inglesa e o gênero musical preferido deles.

Além, é claro, do slogan na faixa que vira e mexe acompanha o grupo em uma apresentação: “Tocando gostoso”.

Os Beto foi absorvendo novos componentes, como Orlando Horner (cavaco e pandeiro) e Vinicius Fantim Alves (surdo). O grupo, porém, nunca foi fechado – muito pelo contrário.

Além do entra-e-sai natural em um grupo que prima pela diversão (dos citados, apenas Deva, hoje em Indaiatuba-SP, não participa mais), Os Beto acabou atraindo diversos outros músicos amadores que orbitam em torno deles onde quer que se apresentem: o Sílvio da cuíca, o Maé e o Gavião do surdo, o Bola do agogô... O número de agregados é enorme.

Estatísticas
Não bastasse ser o faz-tudo da equipe, Edmir Massi – sem ele Os Beto não existiria, garante Marquinho – controla as finanças e virou uma espécie de historiador do grupo. É ele quem anota números e elabora estatísticas. Segundo a planilha do cavaquinho titular, Os Beto levou uma média de 150 pessoas no ano em que se apresentou no Tio Mário e perto de 180 no ano e meio em que tocou no Quebra Gelo, antigo bar na Higienópolis.

O maior público, sem sombra de dúvida, ocorreu na Exposição Agropecuária e Industrial de Londrina de 2004, na arena João Milanez, onde a trupe se apresentou para 15 mil pessoas antes do rodeio.

Nesse tempo todo, muitas histórias rolaram – até de amor. “Não sei quantos casamentos nós desfazemos, mas pelo menos um nós arranjamos”, brinca Marquinho, lembrando da união entre Dalva e o escritor Dinho Pellegrini, que se conheceram no Tio Mário. “E o detalhe”, confirma Pellegrini, “é que na época eu não ia mais em bares, e a Dalva nunca ia”.

Encontraram-se numa noite por conta de amizades. Dinho fora ao Tio Mário prestigiar o amigo Apolo, o dono. E Dalva por ser amiga da mulher de Deva. Desde então não se separaram mais. Continuam tocando a vida gostoso na Chácara Chão. Esses Beto...

Freguesia

(Publicado nesta quarta-feira, 10/11, no Jornal de Londrina)

“Tio Mário!”, berrou Moitinha, o corintiano, torcedor que vem a comprovar a tese de alguns acadêmicos da Turiassu de que parte da linhagem do Homo Sapiens até hoje nasce com o sitocômetro avariado. “Ô, tio Mário”, ele voltou a berrar a plenos pulmões, ignorando o Bar Celestial lotado e a cara de poucos amigos do dono, que minutos antes flagrara mais um espertinho tentando dar um perdido com uma Skol e dois copos – poucas coisas o deixavam mais enfurecido quando neguinho saía com cerveja e voltava sem o casco e sem os copos, e nessa hora o velho Mário, de tão bravo, pouco ouvia ao seu redor.

“Tio Mário!”, insistiu Moitinha, antecipando uma sonora gargalhada, assim que Luís César atravessou a rua principal daquele pedaço do purgatório. “Traz a caderneta, tio Mário, que o freguês está chegando.”

A exaltação era plausível. Não bastasse o 2 a 0 categórico de domingo, em pleno Morumbi, Moitinha já estava com o pote cheio por três cevas e dois lavrados ingeridos nas quase duas horas em que ficou ansiosamente esperando o amigo são-paulino chegar para a sagrada reunião das terças.

Bracciola, o palmeirense, chegara no horário combinado, e se divertira com o estado eufórico do corintiano, chegando a dar trela para as projeções pra lá de otimistas do rival, embora tenha sido, na verdade, uma forma de esconder a preocupação com o pega desta quarta com o Galo pela Sul-Americana – uma eliminação precoce seria o cúmulo, capaz de transformar os normalmente ardentes corredores do Palestra num inferno.

De qualquer forma, pensou, não adianta sofrer antes da hora, e o negócio foi se divertir com as investidas do Moitinha sobre Luís César, a essa altura já devidamente sentado, servido e enturmado – na medida do possível, é claro. Moitinha deitava e rolava:

– Quatro anos, mermão. Não são quatro dias, nem quatro semanas, nem quatro meses. São quatro anos que vocês não ganham da gente. Nem no ano do rebaixamento o Curíntia perdeu do São Paulo!

Luís César ia levando na boa. Só perdeu a esportiva no final, quando, inadvertidamente, disse que havia esquecido a carteira em casa e que ia pendurar a parte dele da conta. Moitinha esculachou de vez.

– Tio Mário, traz a caderneta!

sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Quarta é dia dos amigos no Bar do Kelé

(Publicado esta semana na seção Boas Histórias, no site da Sercomtel)

Em grande parte do mundo o Dia do Amigo é comemorado em 20 de julho, mas em pelo menos um endereço de Londrina essa determinação é descaradamente ignorada toda semana.

Faça chuva ou faça sol, seja horário de verão ou não, com eleição ou sem eleição, no Bar do Kelé, na esquina da rua São Vicente com a Pirapó, toda quarta-feira é Dia dos Amigos.

É um dia especial, em que os principais frequentadores marcam presença munidos de uma porção de carne e muito bom humor para jogar conversa fora ou desafiar o palmeirense Gilmar, dono do pedaço, na mesa de sinuca.

A regra é simples: aparecer com uma bandeja de carne, dessas que os mercados disponibilizam aos montes. É o “ingresso” para o Dia dos Amigos. E cada um paga a sua bebida. A churrasqueira, o carvão, os molhos todos, a farofa – todo o resto é por conta da casa.

A churrasqueira – personalizada, toda funcional, fabricada sob encomenda pelo pedreiro Cidão – é pilotada pelo sósia do Amado Batista, que, de tão parecido com o cantor brega, ninguém mais o conhece pelo nome, Hélio. É Amado Batista e ponto final. Ele próprio se apresenta assim, para surpresa dos incautos.

Deu cinco e meia, seis horas, Amado arrasta a churrasqueira com rodinhas para a calçada da São Vicente e acende o fogo, geralmente com lascas de peroba e tocos de goiabeira que o pedreiro Cidão traz de casa num daqueles engradados de supermercado.

Amado prepara uma pirâmide de lascas de peroba; no centro, um punhado de espetinhos de bambu usados na última churrascada. Nem precisa de muito álcool. A gordura impregnada nos bambuzinhos garante um fogaréu rápido e vigoroso.

E vão chegando os amigos. O comerciante Dirceu ocupa a ponta esquerda do balcão. O mecânico Rogério, impaciente, mata um gomo de lingüiça com muito molho de pimenta, e fica namorando um risólis, todos preparados pela dona Maria, que segura as pontas até a chegada do filho. Gilmar, que, assim que chega do trabalho (é contabilista numa empresa exportadora de café), veste a camisa do Palmeiras e assume as funções de botequeiro-mor.

E chega a comerciante Rita, logo puxando papo com todos. E chega um marciânico sujeito que tenta emplacar uma conversa sobre disco voador – que ele viu, é claro. E chega a turma toda, vizinhos, todos conhecidos de dona Maria e do finado Kelé, que resolveu nos deixar no último dia 10 de dezembro, aniversário da cidade, oito dias depois de ter completado 70 anos.

“Caiu do céu”, afirma Gilmar, falando sobre a iniciativa de Amado em criar o Dia dos Amigos. “Deu tão certo que estou até pensando em trocar o nome do bar, para Amigos do Bar do Kelé, com totem e tudo.”

Cidão vai falando sobre a última pescaria no Mato Grosso, queixando-se de que não vai poder ir noutra, agora, no feriado de Finados. E, como todo bom italiano, se emociona com a chegada do neto, de 13 anos, um baita garotão, a quem serve carne com farinha.

Amado remexe os pedaços de costela ripa, bistecas de porco, gomos grandes de linguiça calabresa, fatias de coração de boi. E vai controlando as labaredas com uma bisnaga d’água estrategicamente colocada na mesa ao lado.

Gilmar, de boa fé, cai na lábia do jornalista Fragoso, freguês temporão, que disse a ele que, para tirar fotografia, era melhor trocar de camisa. Milton, o fotógrafo, corintiano como Fragoso, dá aquela gargalhada de satisfação.

O Dia do Amigo foi inventado pelo argentino Enrique Ernesto Febbraro em homenagem ao 20 de julho de 1969, data em que o homem chegou à lua. E, do jeito que todos bebem, comem e riem no Bar do Kelé, a lua nem fica tão distante assim.

sexta-feira, 15 de outubro de 2010

A noite em que Severina salvou os filhos de um incêndio

(Publicado esta semana na seção Boas Histórias, no site da Sercomtel)

Antes de vir para Londrina, onde tornou-se torcedora fanática do Tubarão quando o time ainda nem tinha esse apelido, fanática a ponto de ouvir todos os jogos e todos os programas esportivos de todas as rádios, Severina Souza Theodoro protagonizou em Laje do Muriaé, divisa do Rio com Minas, um ato de heroísmo: salvou os três filhos pequenos e a si mesmo de um incêndio infernal.

E tudo graças a um bêbado. Um bêbado não: o maior bêbado da cidade, o Nicola, irmão de seo Abílio, o padeiro. Como todo bebum, Nicola, sempre que se encontrava naquele nível profissional de cana, desandava a falar. Tanto enchia o caneco que ninguém mais costumava dar bola ao que Nicola dizia – fosse verdade ou não.

O ano: 1954. Severina morava num sobrado já antigo, dos grandes. Na parte de baixo, a sala e a cozinha. Em cima, os quartos. Eram dois apartamentos. O outro era ocupado por dois irmãos. Embaixo ficavam ainda uma revenda de tratores e a sede da banda municipal. O imóvel ficava em frente à praça, e não muito longe do rio.

A tragédia
Naquela época, Severina morava praticamente sozinha com os filhos, de seis, oito e dez anos. Mário, o marido, vendedor de remédios, passava mais tempo em São Paulo e no Paraná do que em casa. E foi numa dessas que a tragédia aconteceu.

Aquela era noite de baile no salão da banda. A festança foi madrugada adentro, até que algum retardatário pra lá de marrakesh provavelmente resolveu abandonar um toco de cigarro aceso no recinto.

Isto é apenas suspeita. O fato é que lá pelas cinco da manhã Nicola, o bebum, começou a esgoelar, lá da praça, rumo às janelas de Severina: “Fogo, dona Severina! Fogo!”, repetia ele, com voz pastosa de pudim de cachaça. Severina chegou a comentar em voz alta: “Esse Nicola bebe e depois fica falando em fogo”.

Severina abriu a janela, daquelas janelas altas de casarão, certamente para passar um sabão no incômodo bebum, que insistia em gritar “Fogo, dona Severina”. Quando abriu a janela, Severina deparou com altas labaredas. O incêndio já consumira toda a parte de baixo e avançara sobrado acima. A escada já estava sob domínio do fogaréu.

Na coragem
Os meninos acordaram e aprontaram aquele berreiro. No desespero, Severina pegou o mais novo no colo e foi empurrando os outros dois em direção da escada. Desceram a dita cuja na mais pura coragem. Pouco depois de atravessarem a rua, a escada cedeu.

Mesmo assim, Severina voltou àquele inferno e puxou para fora a máquina de costura Singer que estava no começo da sala, bem perto da calçada. Foi o que restou: a camisola de dona Severina, os shorts dos meninos e a máquina de costura.

Homens faziam fila até o rio puxando baldes de água. Em vão: o sobrado já era. Os irmãos que moravam no apartamento ao lado chegaram a ficar sem saída. Pularam com colchões amarrados ao corpo.

Foram para a casa de parentes. Mário estava em Presidente Prudente, seu QG, de onde fazia as rotas para vender remédios. Apelaram à rádio Bandeirantes, de São Paulo, que passou a irradiar chamadas periódicas em busca de Mário Garcia Theodoro. Quem o visse que o avisasse de que a casa dele tinha sido destruída por um incêndio, mas que estava tudo bem com a família.

Rumo ao Paraná
Foi daí que Mário Thedoro antecipou o plano de mudar-se para o Paraná. Chegaram a Londrina no início de 1955. Assustada com o frio, dona Severina queria voltar na mesma hora.

Ficou, encarou a geada negra daquele ano, apaixonou-se pela terra e passou a usar a máquina Singer para costurar os shorts e as camisas que os filhos rasgavam em estripulias no buracão do Azevedo (atual Zerão) e nos campinhos de terra batida do Ipiranga e do Bom Sucesso, nos terrenos onde hoje estão, respectivamente, o ginásio do Moringão e o colégio Vicente Rijo.

Por causa do incendiário freqüentador do baile da banda, do bêbado Nicola e da coragem de dona Severina, o Rio de Janeiro perdeu três papa-goiabas e o Paraná ganhou três craques de bola: Carioca, Apolo e Lelei.

E aconteceu!

(Publicado na edição deste mês do jornal Em Dia, de Echaporã-SP)


O “algo muito grande” – vide a coluna passada, por favor – que seria necessário para reverter o quadro eleitoral e evitar a vitória petista no primeiro turno demorou mas aconteceu. Nos últimos dez ou quinze dias de campanha, Marina Silva abocanhou algo em torno de sete milhões de votos – a maioria da Dilma, o restante dos indecisos – e tornou-se a grande protagonista, até agora, da eleição presidencial.

Este país é mesmo do avesso. Todos os holofotes se voltaram para Marina. Até o alto-falante da praça da igreja matriz está morrendo de curiosidade para saber qual dos candidatos finalistas ela apoiará. Com razão, comemorou com seus correligionários o extraordinário desempenho em 3 de outubro. E, no fundo, das candidaturas realmente viáveis, foi a única que, paradoxalmente, ficou de fora da grande decisão.

Vai entender... Até parece futebol.

Culpa do Lula. Foi só ele ficar comparando qualquer coisa com futebol que até a política ganhou um grau de imponderabilidade que não sabíamos que pudesse existir. Até o domingo anterior ao da eleição ninguém apostava um fósforo queimado na oposição. A vitória de Dilma eram favas contadas. Já se discutia o ministério do próximo governo. A suposta “onda verde” levou José Serra de graça para o segundo turno.

Convenhamos: o tucano não fez nada para merecer. Enquanto oposição, foi uma lástima – nem arrebanhar para si as virtudes do governo FHC, do qual foi ministro, ele conseguiu. Em termos de carisma, é um zero à esquerda. Iniciou a campanha na TV tentando colar em Lula – tática suicida. A participação nos debates foi pífia.

As propostas de campanha de Serra foram tão insossas que, se fizerem uma enquete no bar do Esmeraldo, dificilmente alguém se lembrará de alguma. O tal salário mínimo de seiscentão é bravata das grossas – todo mundo sabe disso. O segundo turno lhe caiu no colo. Uma eventual vitória sua terá o dedo, as mãos, as orelhas e as duas pernas de Marina Silva.

Ao prolongar a campanha eleitoral até o próximo dia 31, o grande mérito da candidata do PV, além de ter dado uma enxadada na soberba dos governistas, foi o de propiciar ao País um embate realmente mais sério entre as visões de mundo e o modo de governar dos dois grupos políticos que desde 1994 disputam o poder no Brasil.

Dar a vitória, logo no primeiro turno, a uma candidata que jamais passara por um teste eleitoral significaria reduzir o nível de discussão e debate da política nacional ao nível das tiriricas e dos carrapichos. A expectativa, agora, é de que José Serra honre a vaga que Marina lhe proporcionou.

Apesar da visível decepção nas hostes governistas e da euforia que dominou o ninho tucano, será muito difícil impedir a vitória de Dilma Rousseff. Lula tirou 20 milhões de pessoas da linha da miséria, robusteceu o salário mínimo com aumentos reais e fortaleceu sobremaneira o mercado interno com crédito facilitado e redução de impostos na hora certa – o que permitiu, por exemplo, que o Brasil passasse praticamente ao largo da crise global de 2009.

Vá convencer esses milhões de eleitores – que antes do Bolsa-Família não tinham dinheiro para nada e hoje comem carne mais de uma vez por semana – que eles têm de mudar o governo. Eis o grande desafio de José Serra.

quarta-feira, 13 de outubro de 2010

O avesso do avesso

"O Brasil acordou na segunda-feira, 4 de outubro, menos entorpecido." Este é o início do texto que escrevi para a última edição da Revista Real, que o santista Régis Querino publica em Londres. O texto é longo (http://www.revistareal.com/out2010_politica.php) e a ilustração que o acompanha, de Edvaldo Jacinto, é essa aí.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O dia em que Bill Gates não veio trabalhar em Londrina

(Publicado na seção Boas Histórias, do site da Sercomtel, www.sercomtel.com.br)



Neste momento em que a cidade aposta na área da Tecnologia de Informações, com empresas investindo no desenvolvimento de softwares, muitos nem imaginam que Londrina esteve muito perto de atrair, na década de 70, o homem que revolucionou a informática.

Antes de mais nada, é preciso saber que Bill é diminutivo de William, assim como Joe é de Joseph ou Zé é de José.

Quem conta a história é Abílio Wolff Júnior, empresário de 72 anos, radicado em Londrina desde os três. Na segunda metade do século passado, Abílio dirigiu a Exactus, empresa que atualmente produz software para gestão empresarial e contábil. A empresa está presente em 150 cidades, com 17 mil usuários.

Mas, décadas atrás, ela já era grande. E, por estar trabalhando nesta área, Wolff, conhecido do então deputado Alencar Furtado, e assessora pelo ex-deputado Hélio Duque, fez uma denúncia à CPI das Multinacionais, sobre a situação da informática no Brasil.

“A relação entre usuários e fornecedores era uma coisa de louco. Prestávamos serviços em computação aqui, mas, se precisássemos de assistência técnica, só no Rio Grande do Sul. As regras e os contratos eram leoninos. Tudo isso tinha de ser discutido.”

Abílio conta que a denúncia feita à CPI chamou a atenção da imprensa nacional e internacional. “Todo mundo queria falar comigo. Cheguei a ficar assustado.”

No Rio de Janeiro, ele teve um encontro com Pepe Guerra, então gerente geral da IBM para a América Latina. Para conversar com Abílio, o executivo fechou uma das boates mais famosas do Rio, a Night & Day, no hotel Serrador, onde hoje funciona a Petrobrás.

Papo vai, papo vem, superados os principais assuntos em pauta no Congresso, a conversa bandeou para a microcomputação. Entre gente ligada à área, já se falava na possibilidade de a indústria avançar para a produção de computadores de pequeno porte – os atuais PCs.

Foi então que, segundo Abílio, o chefão da IBM – líder mundial no mercado de grandes computadores – disse que a empresa não via esse segmento como promissor, tanto que fazia pouco tempo demitira “o menino” que cuidava dessa área, inclusive permitindo que ele levasse tudo o que havia criado em microsoft.

No retorno do Rio, Abílio narrou a conversa com Guerra aos demais diretores da Exactus e sugeriu que se investisse numa viagem por EUA, Canadá e Europa para assuntar novidades na área. E propôs até que procurassem o garoto dispensado pela gigante IBM.

A ideia era a de expor ao “garoto” a precariedade na captação de dados e na introdução deles nos equipamentos da época para processamento – justamente a área de atuação de William Gates. “Dispúnhamos, aqui, de um manancial de clientes que poderia ser, para ele, um grande laboratório para aplicação de seus projetos”, diz Abílio.

A reação geral foi de descrédito, com o argumento de que a empresa estava em franco progresso e, afinal, se a própria IBM não apostou no desenvolvimento daquela área, por que a Exactus apostaria?

Nos anos 90, com a Microsoft já despontando como uma das maiores empresas do mundo, em reunião com Fernando Mitre, sucessor de Pepe Guerra, Abílio pergunta o que o tal William Gates tinha a ver com o já então projetado e reconhecido Bill Gates. “É o próprio!”, respondeu Mitre, laconicamente.

“Quem sabe se todo esse império que o Bill Gates montou não poderia estar aqui no Brasil, e ter nascido e crescido a partir de Londrina?”, pergunta Abílio, referindo-se ao homem cuja fortuna pessoal é de US$ 53 bilhões, segundo a revista Forbes – e seria mais do que o dobro disso, não fossem as doações bilionárias feitas com cerca freqüência por William Henry Gates III.

Nem morto!

(Publicado quarta-feira, dia 6, no Jornal de Londrina)

No papo de ontem à noite no Bar Celestial, o futebol começou em segundo plano. Com os chifres, ou melhor, a cabeça na eleição, os três diabinhos se divertiam ouvindo as histórias do Tio Mário, dos tempos em que era cabo eleitoral (profissional!) em Laje do Muriaé, no noroeste fluminense.

Hoje tem urna eletrônica, o voto é universal, até piá de 16 anos vota, mas naquele tempo do onça, primeira metade do século XX, analfabeto não votava – e como tinha analfa, hein... Principalmente na zona rural, onde seo Mário atacava a cada quatro anos. Em cada campanha eleitoral, ele percorria sítios e fazendas.

O objetivo era ensinar os analfas a escrever o nome – e só isso. O que já era suficiente para tirar o título de eleitor. Certa feita, acompanhado de um incauto, foi ao Fórum garantir mais um voto para seus candidatos-patrões.

O problema foi que, na hora de revelar o nome para o seo Mário ensiná-lo a escrever, o papa-goiaba disse que se chamava Antônio Pereira. Esqueceu do Silva no final, como constava na sua certidão de nascimento.

No cartório eleitoral, ele assinou o que seo Mário tinha lhe ensinado – Antônio Pereira – até que o funcionário, observando a certidão de nascimento do sujeito, indagou: “Cadê o Silva do seu nome?”. No que o capiau, na maior inocência, entregou: “Ué, esse aí o seo Mário não me ensinou”.

Resultado: o juiz local mandou caçar o seo Mário, que teve de driblar muita gente para não acabar no xilindró.

Terminada a gargalhada, Bracciola – com a alma mais leve, agora que, ao que parece, o Parmera tomou tendência – resolveu provocar os amigos. O primeiro alvo foi Luís César.

– Carpegiani... Sei não. Vocês tão mais pra Sul-Americana que pra Libertadores. E olha lá!

O são-paulino fingiu que não ouviu. Arrancou com os dentes o último pedaço do espetinho – ignorou até a farofa com molho verde – e saiu mastigando rumo ao banheiro, para tirar água do joelho.

Bracciola então pegou Moitinha para cristo. Coçou a barbinha rala de uma semana e, sentindo-se inspirado, tascou:

– Amanhã o Curíntia ressuscita o Galo!

Olhando o palmeirense de esguelha, misturando desprezo com impaciência, Moitinha devolveu:

– Perder pro Diego Souza e pro Fábio Costa? Nem morto!

terça-feira, 5 de outubro de 2010

Fina estampa


O problema em ter o Tiririca no Congresso Nacional não é ele em si, o que ele fará, em que ele votará, com qual grupo político se misturará - piores do que ele deve ter um monte por lá já. O problema em ter o Tiririca no Congresso é que, pelo regimento, ele não poderá aparecer paramentado como o palhaço que é. Pois, paramentado, ele é até engraçadinho. Agora, à paisana, o cara é muito feio. O cara é feio de doer. O cara é feio pra caralho! Nem um terno de alta linhagem salva o shape dessa figura, que, insisto, é feio demais, é muito feio esse cara.





quarta-feira, 29 de setembro de 2010

E o pau quebrou

(Publicado nesta quarta-feira, 29/9, no Jornal de Londrina)

A caminho do Bar Celestial, onde Tio Mário serve um espetinho divino com farofa e molho verde, cuja receita a nora dele não revela nem sob tortura, Bracciola remoia desde a semana passada aquele “e aí, porquinho, pronto para a segundona?” do Luís César, doido para dar o troco, agora que o Verdão surrou o Flamengo no Engenhão e o São Paulo levou de três do Guarani em pleno Panetone, ops, Morumbi.

Até em tirar uma casca do Moitinha ele pensou, já que o Timão também sofrera um revés no Beira-Rio, mas, pensou, melhor não, vai que o Inter resolve aprontar pra cima do Palestra nesta quarta. Afinal, jogar em casa não tem sido uma boa receita para o time do Felipão e, deve-se reconhecer, o Curíntia está muito melhor, perdeu quando podia perder, vamos ter de rezar muito pros caras não levarem essa.

Foi então que os três diabinhos se reuniram, desta vez, com o espírito desarmado. O final de semana trouxera notícias alvissareiras para o esporte de Londrina – onde todos viviam, antes de bater as botas rumo ao purgatório.

Lembraram que no sábado o futsal arrasou. As meninas enfiaram 8 a 2 em São José dos Pinhais e se garantiram na semifinal do Paranaense. Os marmanjos viraram o jogo pra cima do favorito Marechal Rondon e estrearam com o pé direito na terceira fase da Chave Ouro.

O handebol fez 29 a 18 em Campos (RJ) e vai de vento em popa na Liga Nacional. O vôlei masculino estava na expectativa de anunciar patrocínio master para a disputa da Superliga. O autódromo está tinindo para receber a Stock em outubro.

Não havia, em tese, nenhum espaço para lances mais belicosos entre os três diabinhos, até que um cabo eleitoral, todo paramentado, com adesivos da cabeça aos pés, entra no bar e pede uma branquinha pro Carlão, o garçom. Moitinha rompe o obsequioso silêncio.

– Eu votaria na Dilma. O mano Lula até arrumou estádio pra nóis...

– Aquele poste? – retrucou Luis César. Prefiro a Marina!

– Eu iria de Serra, só pra ver um palmeirense ganhando do Sapo Barbudo – vaticinou Bracciola.

– Ah, tu prefere aquele tucano vampiro?

– Pois eu acho melhor que uma terrorista arrependida.

– E essa Marina aí, na real, eu acho que...

E o pau quebrou feio no Bar Celestial.

terça-feira, 28 de setembro de 2010

Em Maringá


Clebinho França, com quem trabalhei n'O Diário, foi quem mandou a foto de parte da turma da imprensa esperando, em vão, o presidente Lula conceder entrevista. Foi quinta da semana passada, em Maringá. O "cara" nos deixou a ver navios duas vezes: ao fim da solenidade na Vila Olímpica e, depois, no pós-almoço na Cocamar, atividade de caráter privado, na qual pediu votos descaradamente para Dilma, Osmar, Requião e Gleisi. Revi alguns amigos na cidade: Ivan Amorin, Walter Fernandes, Murilo Gatti. E também Fábio Linjardi e Galleti, com quem eu e Zé Ganchão tomamos várias na quarta à noite. Walter Fernandes, que nos levou da Vila Olímpica para a Cocamar, lembrou do dia em que chegou na minha casa para tomar uma branquinha e inventou de colocar um pouco de salsinha - que eu cultivava displicentemente sobre um monte de britas - na boca. Era para ser uma passagem rápida, mas acabamos quase secando o litro de pinga e o Vartão deve ter comido um alqueire de salsa. Bons tempos.

O bairro mais boêmio de Londrina

(Publicado na seção Boas Histórias, do site da Sercomtel)


Tem lugares que mudam, mudam e continuam o mesmo, invariavelmente com a mesma vocação. É o caso da Vila Ipiranga, na área central de Londrina. Delimitado – sem nenhum rigor científico – pela avenida Bandeirantes, a rua Mato Grosso e um pedaço da JK, o bairro é o mais boêmio da cidade. São, na verdade, alguns poucos quarteirões que abrigam – sempre abrigaram – muitos bares, por onde passaram figuras lendárias, como o desenhista Dom Pablo, que hoje dá nome ao renovado Gelobel do Parque Guanabara.

Se Londrina, por motivos históricos e de afeição, tem muito mais a ver com São Paulo do que com a própria capital do Paraná, é plausível comparar a Vila Ipiranga com a Vila Madalena, bairro nobre paulistano famoso por seus botequins e pelas repúblicas recheadas de estudantes com sede demais e dinheiro de menos, ávidos por um lanche barato e um violão ao vivo.

Os estudantes universitários sempre tiveram uma predileção pela Vila Ipiranga. Por causa, evidentemente, dos bares, que mudam de lugar, trocam de dono, mas não perdem a clientela. O Bar do Jota, na rua João Cândido quase JK, é até hoje ponto de uma fauna pra lá de diversificada. Sob o som da velha MPB e ao redor das mesmas mesas de sinuca se reúnem tribos de toda espécie, de todas as idades, de todas as tendências lítero-músico-sexuais.

Hoje nas mãos de um italiano, faz semanas que corre o boato de que o Jota está prestes a trocar de dono, o que já aconteceu com diversos outros bares do pedaço. O do Cebolinha, na esquina da João Cândido com Jorge Velho, atualmente recebe um público – com mil raposas incendiárias! – absolutamente distinto dos que, antes, ouviam Dom Pablo, entre uma pinga e outra, declamar Augusto dos Anjos.

O Bar do Milton, na João Cândido com Raposo Tavares, já era. O Bar do Souza, na Mato Grosso com Paes Leme, onde foram consumidos um bilhão e meio de torresmos suculentos, também. O Valentino original, na esquina da Jorge Velho com o Buracão do Azevedo, por onde circularam gerações de artistas e malucos, idem. Marcão trocou o bar da Jorge Velho quase Rio de Janeiro por um táxi. O Meeting, na Souza Naves, teve vida curta na década de 80. E o saudoso Tio Mário, ponto de encontro de universitários, profissionais liberais, boleiros e outros desocupados, é outro que fechou as portas depois de peregrinar por dois ou três endereços da Vila.

Mas o Paulista velho de guerra continua lá, na esquina da Jorge Velho com Amador Bueno, com a cerveja gelada, a comida, a sinuca e o pano verde que atraem muitos bacanas da cidade. O espanhol Nicolas – avante, Fúria! – levou sua padaria/lanchonete da esquina da Raposo com a Rio de Janeiro (onde hoje funciona um restaurante tipo “coma quanto puder”) para a descaída da Borba Gato, mas permanece com o dispendioso hábito de apostar com o jornalista Armando Duarte meia dúzia de cervejas em qualquer confronto Corinthians x Palmeiras.

Enquanto uns fecham, outros surgem – como o Zuppa, com sua boa comida a preços civilizados, na Jorge Velho – e outros mudam de dono e de nome. O Bar do Alcides, na Praça do Aleijadinho, perdeu as centenárias teias de aranha e ganhou pintura, mesas e menu mais convidativos. E, na fachada, bem em cima, uma placa amarela com dizerem em preto, que leva o nome, a idade e a marca do bom humor: “Bigorna, desde 1630”. A data é do surgimento da bigorna, e não do bar, evidentemente.

quarta-feira, 22 de setembro de 2010

Lula-lá

Daqui a pouco puxo o carro pra Maringá. Tenho de retirar, até as 18h, no Golden Ingá, a credencial para acompanhar a comitiva do Lula amanhã. Feito isso, vou ligar pro Linjardi n'O Diário e amarrar uma cerva. Necessariamente num bar onde passe Grêmio Prudente x Palmeiras. Mais uma pedreira para o time do Felipão. Simplesmente o lanterna do campeonato. E depois o corintiano diz que ele é o sofredor... Vai ser palmeirense pra ver o que é bom pra tosse.

Verde crise

(Publicado nesta quarta, 22 de setembro, no Jornal de Londrina; mais um texto da série "Os três diabinhos")



– Mano, seguinte: de 1º de setembro de 2009 a 30 de agosto de 2010, o Curíntia estava nos 99 anos. O centenário começa a partir do aniversário de 100 anos e dura os 12 meses seguintes. O que ele faturar até agosto de 2011 é caneco do centenário, tá ligado? Tá ouvindo, mermão?

Por mais puto que tenha ficado com a nova tese corintiana para duplicar o ano do centenário, a ponto de pedir explicações formais ao Moitinha, Bracciola praticamente ignorou o bla-bla-blá do colega diabinho, absorto que estava no balcão do Bar Celestial, agoniado com o atraso de Luís César, torcendo para que ele faltasse à reunião sagrada das segundas-feiras, nas quais é discutida, lá no purgatório, a rodada esportiva do final de semana aqui na Terra.

O 2 a 0 de domingo ainda doía no lombo. Pior – e com o Corinthians na liderança! A cada segundo só aumentava a aflição de imaginar o Cesão zoando total, entrando numa daquelas de dizer que o Palmeiras está se aportuguesando, que vai de novo pra segundona, que daqui a pouco nem torcida vai ter mais, que vive de passado, que vai acabar mesmo é disputando clássico com o Juventus na Rua Javari.

E o duro é que ele estava ficando sem argumento. Começou a achar que está se repetindo uma nova década de 80, a década perdida, a década dos elencos medíocres, da fila. A década dos Vasconcelos, dos Adalbertos, dos Ditinhos Souzas. O olho lacrimeja, o coração dispara.

– Acho que eu vou morrer de novo - pensou o diabinho palmeirense. Mas justo agora, ele lamentou. Justo agora que tínhamos estragado a festa dos 107 anos do Grêmio em pleno Olímpico, com Felipão, pai da Libertadores-99, sendo aplaudido na casa do inimigo?

Perder para o São Paulo, com o time entrando em campo com a camisa de 1942 e a bandeira do Brasil, exatamente como há 68 anos, no mesmo Pacaembu, no primeiro jogo com o nome de Sociedade Esportiva Palmeiras, em que foi campeão justamente em cima do São Paulo, que levou a virada de 3 a 1 e fugiu de campo quando ainda havia um pênalti a nosso favor?

Tão avoado ficou que Bracciola nem viu Cesão chegar e, por trás, num lance que valia cartão vermelho, dar dois tapinhas nas costas dele e sussurrar:

– E daí, porquinho, preparado para a segundona?

É a morte! Definitivamente, é a morte!

domingo, 19 de setembro de 2010

Os três diabinhos

O texto aí de baixo, "Trio diabólico", foi publicado quarta-feira no Jornal de Londrina. Foi a estreia de três personagens: o palmeirense Bracciola, o são-paulino Luís César e o corintiano Moitinha. Os nomes do são-paulino e do corintiano são homenagens a amigos meus. Não conseguia imaginar nenhum para o palmeirense, então aceitei sugestão do Pedriali. Faz uns meses que escrevo coluna no JL, convidado que fui pelo editor de Esportes, Diego Prazeres. Ele me encomendou alguns textos durante a Copa da África e, findo o Mundial, fez o convite para uma coluna semanal. Comecei fazendo textos "normais". Daí bateu a ideia de criar personagens. Estava indo de carro para Guará, no feriado prolongado de 7 de setembro, quando bateu a ideia. E não há melhor ocasião para se pensar em algo durante uma viagem de carro, você sozinho, quatro, cinco horas de viagem. Moitinha - nem sei o nome real dele, nunca soube - é um guaraense com quem joguei bola a infância toda. É da Vila Maria, onde hoje toca uma mercearia bastante concorrida. Negão, além de comerciante bem sucedido é presidente da Associação Atlética Guaraense, onde eu nadava tanto que voltava pra casa com os cabelos verdes de cloro. Enfim, no primeiro texto eu apresentei a patota e meio que alinhavei como vai se dar a coisa. Agora tenho de prosseguir com a brincadeira. E estou com um medo do caralho de não dar conta do recado. Os três diabinhos vão ao Bar Celestial todo domingo ou segunda ou terça à noite discutir a rodada. E, nesta, tem Palmeiras x São Paulo. O desafio - e é o que está me dando cagaço - não é o de escrever o que vem na cabeça do Bracciola. É tentar decifrar o que vem da cabeça do Luís César e do Moitinha. Enfim, me colocar como são-paulino e corintiano. Não busco imparcialidade, posto que é impossível. Só gostaria de poder traduzir minimamente o que passaria pela cabeça dos rivais em cada situação. Para isso, vou ficar instigando meus amigos bambis e gambás. Já fiz isso dias atrás com Fábio Linjardi, corintiano d'O Diário, de Maringá, onde trabalhei quatro anos. "Roubei" dele a explicação do porque o centenário corintiano começou (e não terminou) agora, dia 1º de setembro. Os caras são muito cara-de-pau. Deixei o santista de fora propositalmente. O Santos é meu segundo time, como, de resto, da maioria dos brasileiros, e nada, nele, me motiva a tirar sarro ou qualquer coisa assim. Bem, vamos ver no que dá.

Trio diabólico

Bracciola chegou ao Bar Celestial espumando.

– Li no JL um cara falando que o centenário do Curíntia começou agora, dia primeiro - ele disse meio que para ninguém, com o bar ainda vazio, enquanto Carlão, o garçom, arrumava as mesas de fora. “Vai ser cara-de-pau assim lá em Itaquera.”

O garçom escutou, mas fingiu que não. Sabia que quando aconteciam essas presepadas, tipo essa, do corintiano, de repente, se dar o direito de inventar um segundo ano para o mesmo centenário, o Bracciola espumava de raiva.

Carlão ficou na dele, espanando a poeira e armando cadeiras, cônscio de que dali a pouco chegariam Luís César e Moitinha, para, então, os endiabrados amigos protagonizarem aquilo a que se habituaram desde que passaram daquela pra melhor.

Sim, caro leitor, são três diabinhos – um são-paulino, um palmeirense, um corintiano. Ao baterem as botas, se encontraram lá em cima e, apesar das diferenças, não se desgrudam. De lá pra cá, se reúnem todo domingo ou segunda ou terça à noite para analisar a rodada do final de semana.

Pode ser o que for: handebol masculino, futsal feminino, basquete, natação no Country, tênis no Canadá, suíço no Iate, mas, evidentemente, curtem mais o tridêntico futebol.

São diabinhos porque não há como esconder os chifrinhos, ainda que incipientes, como um garrote desmamado. Mas eles estão lá, embaixo da boina ou do boné, como prova cabal de que seus donos estão ali, naquele purgatório, à espera do momento de passar pro andar de cima. E não há lugar melhor que o purgatório para se colocar os pingos nos is.

E, meu Deus do céu, como há coisas a serem discutidas. Brasileirão, Sul-Americana, Centenário, Ronaldo Gordo, São Contusão Marcos, Rogério Ceni, Morumbi out, Fielzão/Itaquera, Arena Palestra, Felipão, Renato Gaúcho, Manôôô...

Basquete, F-1 e todas as siglas com que o londrinense, em particular, se habituou desde sempre ou nos últimos anos: LEC, SM, PSTC, VGD, ADL e por aí afora.

Ignorando a sanha censurística juramentada de uns e outros por aí, os diabinhos vão discutir as coisas da cidade, do Brasil e do mundo, de boa. Pra começar, podiam falar de que morreram. Não antes do Moitinha explicar essa de que o centenário começa agora. Cê tá de brincadeira, hein, Moitinha...

sexta-feira, 10 de setembro de 2010

Boa viagem, Oswaldo


O portal Bonde, do qual tunguei a foto acima, noticiou hoje a morte de Oswaldo Bernardes, comerciante de Cornélio Procópio. Oswaldo perdeu o controle do seu Space Fox e deu de cara com uma árvore às margens da BR-369. Nem é preciso dizer por que a morte de Oswaldo virou notícia. Basta ver a foto aí. Deve ter sido uma figuraça. Comentários de internautas ao pé da notícia no Bonde dão conta de que era um suejto divertido praca. Gostaria de tê-lo conhecido. Se há ao menos um pouco de verdade em tudo o que vi ontem à noite no filme "Nosso Lar", então Oswaldo já deve estar distribuindo abraços e algumas broncas por lá. Abraços nos heróis da Taça Rio, broncas em dirigentes como aquele presidente na época da Segunda Academia que tungou aplicações de jogadores como Leão e Ademir da Guia. E deve estar procurando desesperadamente o xará Osvaldo Brandão, para agradecer tudo o que ele fez pelo Verdão e para garantir que a taça que leva o nome dele - instituída para os confrontos entre Palmeiras e Corinthians - ficará, se Deus quiser, na sala de troféus da futura Arena Palestra. Valeu, Oswaldo!

terça-feira, 7 de setembro de 2010

Desculpa aí

(Tungado total do blog do Juca Kfouri; até a foto. Leitura indicada a corintianos obtusos e são-paulinos empedernidos)





Por ROBERTO VIEIRA


7 de setembro de 1965.
O primeiro baile do Mineirão.
O Mineirão inaugurado dois dias antes.
Um baile heterodoxo.
Baile da seleção brasileira diante dos uruguaios.
A multidão aplaude a equipe verde-amarela.
Seleção que normalmente jogava apenas de verde.
A Seleção da Academia.
Pois a seleção brasileira era o time do Palmeiras.
Ironicamente dirigido por um estrangeiro:
O argentino Filpo Nuñes.
Único estrangeiro a dirigir a seleção brasileira.
Os celestes não traziam suas estrelas.
O jovem Pedro Rocha estava de fora.
Cubillas também.
Mas o antigo Palestra trazia uma constelação.
Djalma Santos.
Djalma Dias.
Ademir da Guia.
Rinaldo, o moço de Jurema.
Palmeiras que trazia Julinho Botelho.
Julinho em seu último espetáculo pela seleção.
O jogo foi 3 a 0.
Poderia ter sido de cinco, seis, sete.
Cincunegui, futuro jogador do Atlético-MG e do Náutico.
Não viu a cor da bola.
O arqueiro Taibo foi trocado por Fogni.
Quem sabe o desastre maior seria evitado?
Mas Rinaldo, Tupãzinho e Germano não permitiram.
Um ano depois, a seleção brasileira naufragava na Inglaterra.
Com os uruguaios se perguntando na distancia:
Por que não trouxeram a Academia?

terça-feira, 31 de agosto de 2010

Zizinha, 91



É uma reclamona de mão cheia. De nada adianta Ciló e eu insistirmos que ela é uma privilegiada, pelo fato de passar dos 90 meio tortinha, sim, mas com saúde geral de ferro e, sobretudo, absolutamente lúcida. Mas não adianta. Todos devem ser assim. Meu avô Paulo Fischer, marido dela, que se foi há uns 4 anos, até por ser alemão, não era tão reclamão quanto a italiana Elzira Ilza Tizziotti, mas também vivia reclamando pelos cantos que não podia mais trabalhar, não podia mais isso e aquilo. Enfim, todo esse blablablá para anunciar que dona Zizinha, minha vó paterna, completou 91 anos na segunda, dia 30, mas foi no domingo, 29, o almoção de festa, na varanda da casa dela, como sempre ocorre nos aniversários e nos dias de Ano Novo. Estavam quase todos lá, em Guará. Na foto de cima, Zizinha com os três netos, meu irmão Luís Henrique, Mônica e Emerson. Na de baixo, a nonna com os três filhos, Ciló, João Luís e meu pai, José Moacyr. Faltaram apenas eu e a Natália, única bisneta. Ensaiei de ir, mas encarar 560 km de Londrina a Guará no sábado com volta no domingo é de lascar. Furei conscientemente, na esperança de estar lá agora, no feriado prolongado de Sete de Setembro. Telefonei à uma da tarde, a cobrar, para a casa da Ciló, contígua à da vó. Estava na Gláucia, irmã do Marião Fragoso, nos Cinco Conjuntos, ajudando a turma a secar alguns fardinhos de cerveja por conta dos quatro anos do Giovanni, que nasceu corintiano, mas morrerá palmeirense, se Deus quiser. Chamo-o de Gladiador, e o garoto atende com presteza. Minha filha ganhou pijaminha do Palmeiras quando nasceu, presente do são-paulino Cláudio Paçoca Osti, e virou corintiana. O próprio Fragoso, gambazão, é filho de palmeirense. Então, nada mais justo que eu batalhe para transformar Giovanni num legítimo porco. E, pelo jeitão do moleque, vai ser porco-espinho. Saúde, dona Zizinha. O Corinthians completa 100 anos daqui a alguns minutos, o Palmeiras comemorará dia 26 de agosto de 2014, poucas semanas depois da Copa do Mundo, e todos nós já estamos de contagem regressiva para o seu centenário, em 2019. Quem sabe não faremos a mesma foto deste domingo, com a senhora segurando no colo um ou dois tataranetos?





quinta-feira, 29 de julho de 2010

No aeroporto de Franca


Meu irmão me manda essa foto e provoca: "Não lembro de ter visto vc com o Lula..." Até contei a ele que em 1994, na sua segunda tentativa de se tornar presidente, o Sapo Barbudo fez uma carreata em Londrina, entrando na cidade pela avenida Tiradentes, ele que vinha de alguma cidade da região. Era repórter da Folha e acompanhei o candidato na carroceria de uma caminhonete. Como não havia quase ninguém ao longo da Tiradentes, uma avenida que abriga lojas de serviços e que, naquela época, tinha grandes espaços vazios, a caminhonete ia em alta velocidade. Lula olhava pra frente quieto. Nem se quiséssemos conseguiríamos conversar. Com aquele vento na cara, não daria para ouvir o que um falaria para o outro. Fiquei na minha, urubuservando. A falta de palavras durante o trajeto e de gente que pudesse provocar alguma reação do candidato devem ter deixado minha matéria pouco atrativa, não me lembro, mas me arrisquei a dizer pro Luís Henrique que, se procurasse, encontraria nos arquivos da Folha alguma foto minha com o Lula. No fundo, deve ter sido um pouco de despeito, porque nem me lembro se havíamos sido fotografados naquela carreata. Então, por absoluta falta de combatividade, declaro meu irmão vencedor nessa disputa, ele que na foto acima, de semanas atrás, aparece à esquerda de Orestes Quércia e à direita de Geraldo Alckmin. À esquerda de Alckmin, meu pai. Na extrema esquerda, Alcides Furtado, o homem que administrou Guará - nossa cidade - por cinco mandatos. Estavam todos no aeroporto de Franca, que fica próxima da nossa Guará e da Pedregulho de Orestes Quércia. Seo Alcides sempre foi muito ligado politicamente a Quércia - daí, acredito, a razão da visita. Seo Alcides é o líder maior da banda política denominada "macaúbas", que até hoje, embora em menor escala, disputam o poder local com os "pés-rachados". Dizem que as duas administrações seguidas de Marco Aurélio Migliori - um pé-rachado histórico - tem contribuído para amenizar esse maniqueísmo da política guaraense. Prefiro acreditar que sim. Mas o fato é que a cidade sempre se alternou entre um e outro grupo político. Os macaúbas sempre com um apelo mais popular; os pés-rachados, elitistas. Desde a época do bipartidarismo imposto pelos milicos, Arena x MDB, a disputa em Guará é entre macaúbas e pés-rachados, abrigados na mesma legenda, Arena 1 x Arena 2, depois PDS 1 x PDS 2. MDB e mesmo o PMDB tiveram poucos representantes na cidade, pelo menos até 1982, com a ascensão de Franco Montoro em disputa interna acirradíssima com Quércia, que viria sucedê-lo em 1986 no governo paulista. Seo Alcides está com 85 anos, totalmente lúcido, e é uma das minhas maiores esperanças em me conceder alguma pista da trajetória de Antônio Fernandes Sobrinho, o guaraense que, em 1954, foi eleito prefeito de Londrina, aos 32 anos de idade. Minha mãe diz se lembrar do pai dela contando que tinha uma irmã casada com Antônio Fernandes, dono de uma máquina de beneficiar café. Talvez seja o tio do Antônio Fernandes de Londrina. Se conseguir pegar o fio dessa meada, pode ser que renda uma boa história.

quinta-feira, 15 de julho de 2010

No apê de Luciana



Essa foi a ilustração que Edivaldo Jacinto, artista plástico e publicitário em Londrina, fez para uma crônica minha publicada por Régis Querino na sua Revista Real, que circula em Londres. Ex-colega de Folha, Régis está na Inglaterra há vários anos. Para quem se interessar, o endereço é www.revistareal.com. A crônica foi editada nas páginas 20 e 21 da edição de julho. A esposa está concluindo um mestrado e, pelo jeito, o Papagaio - santista de nascimento e de coração, apesar do pai palmeirense - vai entrar numas de não voltar mais não. Lá, faz aquilo para o qual se formou aqui: jornalismo. E faz bem feito.

Esse polvo rende


Mais uma charge motivada por Paul, o polvo vidente da Alemanha. Essa, que chupei do Paçoca com Cebola, publicada originalmente na Gazeta capixaba, é ainda melhor que a de baixo, com o Felipão.

Seu frangueiro!

(O texto abaixo é minha estreia na seção "Boas Histórias", no site da Sercomtel. Será um texto por semana, dentro do espaço Planeta Sercomtel. Estou substituindo Apolo Theodoro. Que responsa, hein...)



O "frango" de Waldir Perez em Londrina

Muitos dos que assistiram ao recente torneio amistoso no Estádio do Café, entre Iraty, Atlético Paranaense, São Caetano e Corinthians, talvez não saibam que essa não foi a primeira Taça Cidade de Londrina. Já houve outra, em 1984, conquistada pelo Palmeiras. Para comemorar o cinqüentenário da cidade, houve vários eventos. Muitos vão se lembrar do famoso show do palco flutuante no Igapó. Alguns talvez se lembrem do show, no Moringão, com três mestres da sanfona, Sivuca, Dominguinhos e Osvaldinho. Eu, que chegara para cursar UEL justamente naquele ano, lembro de todos – mas, principalmente, do torneio entre Londrina, Café (então o segundo time profissional local), São Paulo e o Verdão de Parque Antártica.

A fórmula de disputa foi a mesma desse torneio recente: dois jogos na sexta-feira e, no domingo, a final, entre os vencedores dos primeiros confrontos. Naquela ocasião, o Londrina sapecou uma goleada no Café e, na decisão, perdeu de 1 a 0 para o Palmeiras, que eliminara o São Paulo.

Foi a primeira vez que fui ao Estádio do Café, hoje Jacy Scaff. Fui ver meu time, que estava exatamente no meio da fila de 16 anos sem títulos, que só viria acabar em 1993. E o jogo era contra o São Paulo de Waldir Perez, apontado como principal responsável pela “Tragédia de Sarriá” – aquela famosa derrota do Brasil para a Itália, na Copa de 1982, aquela dos três gols de Paulo Rossi que afundaram o futebol-arte do time de Telê.

Minha bronca com Waldir Perez vinha de 1977, quando ele catimbou os jogadores do Atlético Mineiro na decisão do Campeonato Brasileiro e os fez errar várias cobranças de pênalti. E o time de Chicão, que naquele jogo daria botinada até no papa, se ele passasse por perto, ganhou o título na base da retranca. Mas tive minha vingança.

O Palmeiras ganhou do São Paulo, em Londrina, com um gol olímpico do meia Jorginho. Ele cobrou o escanteio à meia altura, e a bola entrou entre o goleiro e a primeira trave. Mais uma falha clamorosa de Waldir Perez, que poderia ter pego a bola com facilidade. E também por não ter posicionado alguém de sua defesa no primeiro pau. Devo ter xingado o goleiro sãopaulino até cansar, mas da arquibancada não vale muito – o jogador não vai ouvir algo vindo lá de longe e, mesmo se ouvir, não vai dar bola.

Uma história que ouvi de um colega jornalista em junho agora, ou seja, 26 anos depois daquela partida, deixou minha vingança completa, pois esse colega jornalista – cujo nome, infelizmente, não posso revelar – fez naquele dia o que eu gostaria de ter feito.

Ele tinha apenas seis anos e, como eu, tinha ido pela primeira vez ao Estádio do Café. Sãopaulino roxo, o pai o levou, no dia seguinte, ao hotel onde as delegações estavam hospedadas. E, todo orgulhoso, ia apresentando ao filho os jogadores do seu time de coração, até que, frente a frente com Waldir Perez, o garoto, com a sinceridade inerente à toda criança, tascou, na lata, o desabafo entalado na minha e na garganta de milhões de brasileiros:

– Seu frangueiro!

quarta-feira, 14 de julho de 2010

O polvo




Tem gente que sabe mesmo fazer humor.

quarta-feira, 16 de junho de 2010

Torresmo, cerveja e futebol


Se eu tiver um piripaco nas próximas semanas, que minha família sinta-se à vontade para processar Poka Marques, que fritou quatro quilos – eu disse quatro quilos! – de torresmo para recepcionar o bando que foi à casa dele ontem ver a estréia do Brasil na Copa. Eu não conseguia parar de comer aquela delícia. Quando achei que já tinha passado do limite, peguei um pão e fiz um sanduíche de torresmo que acho que foi uma das coisas mais saborosas que já comi na vida. Comi tanto torresmo que nem experimentei o caldinho de feijão que todos elogiavam. Além dos pais (Rosa e Juca), da filha (Lia), da esposa (Silvia) e de uma amiga (Cláudia) do Poka, o anfitrião reuniu uma turma pequena porém significativa em termos de capacidade etílica e outras sem-vergonhices: Apolo Thedoro, Negão, Mario Fragoso, Pio. Também foram a esposa (Tati), a enteada (Clarinha) e o filho (Giovanni) do Marião. E, depois do jogo, apareceu o Marquinho, d’Os Beto. Derrubamos uma quantidade industrial de cerveja e assistimos à nervosa estréia brasileira. Logo após os hinos nacionais, disse à turma que gostaria que o Brasil vencesse por dois a um, de virada – com aquele coreano chorão abrindo o placar. Era para homenagear o coreano. Curto esses momentos francos de emoção. O cara realmente estava se sentindo nas nuvens lá na África, perfilado aos seus companheiros de time, sob o hino de seu país, a minutos de jogar uma Copa do Mundo, e contra a melhor seleção da história. Legal isso. Bem, o placar eu acertei. Mas, ao invés de abrir o marcador, a Coréia fez o gol de honra já no final, e não foi com o chorão. Saímos todos da casa do Poka de cara cheia e preocupados com a equipe de Dunga. Kaká não pode continuar. Está fora de forma, a anos-luz do grupo. E a questão nem me parece apenas ter paciência para ele adquirir ritmo durante a competição. O que, acho eu, ninguém ainda falou com clareza para os brasileiros é que Kaká, ao contrair a tal pubalgia, deixou de ser aquele cara. O atleta que tem esse troço simplesmente não é mais o mesmo. Os movimentos, a arrancada, a potência muscular e do chute, a flexibilidade – nada mais é o mesmo. Não podemos ficar esperando um jogador que não existe mais. Kaká é craque de bola, ainda é relativamente jovem, pode fazer coisas boas na seleção, mas a realidade é que ele não é mais o mesmo. Produzir aquelas arrancadas, imprimir aquelas assistências, acertar aqueles chutes de longe com os quais estávamos acostumados não vamos ver mais – pelo menos na quantidade e precisão de antes. Sugeriria ao Dunga que invertesse a situação: ao invés de substituí-lo sempre no segundo tempo, visto que ele próprio já disse que não suporta 90 minutos de jogo, que o deixe no banco, para então reforçar a equipe na segunda etapa. Com isso, a seleção ganharia um reforço de peso na parte decisiva das partidas e daria chance de outro jogador – Júlio Baptista é o reserva imediato – se entrosar com a equipe, quem sabe, assim, construindo uma formação mais coesa e, portanto, mais confiável, virtude essencial em um torneio tiro curto. Bestas de nós se acharmos que a coisa é fácil assim. Não se saca um jogador com tamanha carga de patrocínios do time assim não. A real é essa. O jogo de ontem deixou bem claro, também, quem é, de fato, “o cara” do Brasil nesse Mundial. Robinho. O cara chamou a responsa, recuou para a armação – função que é de Kaká – e resolveu para nós. Está aí uma alternativa a Kaká: recuar Robinho para o meio e escalar Nilmar ao lado de Luís Fabiano. Bastaria segurar Elano um pouco mais e, com isso, apoiado pela vigilância dos dois volantes, permitir o avanço dos laterais. Com os laterais apoiando e Robinho executando a função do segundo passe, é difícil alguém peitar o Brasil. Aliás, o passe dele para o segundo gol, de Elano, me lembrou aquele do Zico para o Júnior contra a Argentina, em 1982. Fenomenal! Vamos ver contra a Costa do Marfim.

domingo, 13 de junho de 2010

Baita aposta


O Parmera é phoda. A cartada que ele acabou de jogar é de altíssimo risco. Repatriar Felipão é absolutamente do caralho. É tudo que precisa um time, um clube, uma nação, que vive de sobressaltos. Vai do zero ao cem em menos de um segundo. O tempo de uma canetada. Não é fácil torcer para um time assim, mas, enfim, é do que gostamos. É isso que os inimigos não entendem: quando insinuam que está virando uma Portuguesa de Desportos, o Palmeiras traz de volta o técnico desejado por TODO MUNDO. Num momento em que, em campo, o time está mais perdido que barata tonta. Num momento em que a oposição quer comer o fígado da situação. Num momento em que precisa estartar um projeto de R$ 300 milhões - que a oposição quer ver na lata de lixo. Ou seja, ou o Palmeiras se afunda de vez ou renasce, arregaçando a boca do balão, como sempre. Na real, o centenário palmeirense começou hoje. A maneira como o time, o clube, a torcida vão estar em agosto de 2014 começou a ser desenhada hoje. Ou Felipão e seus R$ 700 mil mensais - bancados, certamente, por algum mecenas, como é típico dos que vivem de sobressaltos - dão certo e arrumam a casa, passam a ganhar jogos, conquistar títulos, garantir a Arena, ou, se houver um revés, ele será do tamanho do mundo. É muito tênue o fio que separa um Palmeiras enterrado em dívidas, em guerra civil, provavelmente numa divisão inferior, do Palmeiras imperativo, orgulhoso, dono de uma arena sediando o grupo da Itália na Copa de 2014. O futuro do Palmeiras teve um capítulo capital nesse domingo.


Durmamos, então, com essa declaração de Felipão, chupada do globo.com, ainda que seja uma declaração ao site oficial, essas coisas que palmeirense de verdade não gosta muito:


- É uma alegria enorme retornar para um clube que eu tenho raízes e onde conquistei não apenas títulos, mas o carinho e o respeito de dirigentes, funcionários e torcedores. Nunca escondi minha admiração pelo Palmeiras e estou emocionado por voltar. Sempre deixei muito claro que a prioridade era voltar para o Palmeiras, e a torcida pode ter certeza que vamos ser felizes novamente.


Alguém já disse que, unido, o Palmeiras não perde nem para ele. Felipão pode ser o amálgama de que o clube necessita. Felipão será o superbonder do Parmera. Se Deus quiser.

quarta-feira, 5 de maio de 2010

Estou pelando de medo do Atlético Goianiense

Na tarefa de secador-mor de todo torcedor verdadeiro, vos digo: dei de ombros para a "vitória" do São Paulo ontem, estou pelando de medo do Atlético-GO, estou pelando mais ainda de medo do Corinthians ganhar do Flamengo e, der o que der, vou me deleitar com o resultado de hoje à noite na Vila.

Como diria o esquartejador, vamos por partes.

1. Acho que o São Paulo não passa pelo Cruzeiro nas quartas-de-final, por isso nem liguei muito para a vitória dos bâmbis, nos pênaltis, diante do... Carai, com quem o São Paulo jogou ontem? Vi o resultado hoje cedinho, na net, já esqueci o nome do adversário, mas ia dizer que só fiquei ligeiramente escorneado com a declaração do Ceni, de que não seria justo com ele se o São Paulo perdesse depois de ele ter errado a primeira cobrança. Pô, o cara erra a cobrança e diz que, se o time perdesse, não seria justo com ele? Vai ser mala e arrogante assim no Jardim Leonor. Rogerinho, meu rei, é por isso que tu nunca vais chegar aos pés do Marcão. Teu destino é ser ídolo dos bâmbis - e só!

2. A única possibilidade de o Palmeiras sair de Goiânia hoje classificado é o fato de que meu time, muitas vezes, gosta mais de navegar em águas turbulentas do que em águas plácidas. Porque tudo o resto joga contra ele hoje. Fez um placar magérrimo no Palestra - o mesmo 1 a 0 que fizera contra o Patético Paranaense e que, no jogo da volta, o fez suar sangue e lágrimas diante de tanta incompetência em converter um golzinho nas tantas chances que teve. O Atlético Goianiense é muito melhor que o Paranaense. Tem um time redondinho - foi campeão estadual no último final de semana, estreia na Série A do Brasileiro no próximo final de semana. Joga em casa diante de um time absolutamente desequilibrado, física, tática e emocionalmente falando. Tem até goleiro-artilheiro. Vai jogar desafiado por uma grande equipe e mordido por ter sido garfado em São Paulo - só palmeirenses míopes dos zóio e da cachola podem achar que aquilo foi pênalti. E o tal Diego Souza me inventa uma contusão às vésperas do pega com os caras em Goiânia. Aquele Palestra, para variar, está um caldeirão.

3. Chega a dar pena dos corintianos. Tudo bem que o vácuo deles na Libertadores é a arma primeira dos rivais para caçoá-los, mas um novo fracasso hoje ganharia proporções de guerra civil. Se cinco anos atrás, diante do River, no Pacaembu, foi preciso que meia dúzia de policiais militares fossem abençoados por Deus para evitar uma tragédia sem precedentes, agora a tragédia está anunciada. Se o Curintia perder hoje, a única salvaguarda dos que estarão dentro do gramado é se o time perder de maneira heroica, reta, empolgante. Porque, se perder de maneira apática, como ocorreu no Maracanã, com o Gordo jogando nada, vixe, Santa Maria de Deus. Não quero nem ver o que vai acontecer no Pacaembu. Ademais, além da inegável força corintiana, o Flamengo, pelo menos em mim, não inspira a menor confiança. Tem bons jogadores, mas é uma equipe absolutamente sem coesão, repleta de vaidades feridas, de egos inflados. A única chance deles encararem o Corinthians de verdade é os moleques e menos conhecidos do time darem o sangue e empurrarem a equipe, porque não confio em Vagner Love, Bruno, Pet e mesmo Adriano. O Flamengo tem tradição de sempre contar com sua base na hora em que precisa. E vai precisar muito dela hoje. Se o Corinthians sair na frente, meus amigos, esqueçam. O Mengo sai com uma sacola nas costas.

4. Vou me deleitar com o que vier hoje na Vila porque, se o Santos encaçapar o Galo, vou me divertir com a cara de bunda do Luxa. E, se o Atlético-MG ganhar, e meu Parmera também, então terei um rival mais fraco pela frente numa eventual decisão - embora ache que quem vai para a final, na chave do Palmeiras, é o Vitória, que vem jogando muito bem e, particularmente para meu time, é um asa-negra daqueles.

sábado, 1 de maio de 2010

E lá se foi abril!

Abril foi cansativo, porém muito prazeroso. Trabalhei bastante, curti muito. Em meios à tarefas da Tangará, minha empresa em sociedade com Fábio Cavazotti, fiz dois frilas importantes. Do 1º ao 11º dia, integrei a assessoria de imprensa da Exposição de Londrina, uma das maiores do País. Por aqui, claro, dizem que é a maior da América Latina, à frente de Esteio (RS) e Uberaba (MG). Cascavel (PR) já garante que a deles é a maior. Ribeiro Preto (SP) tem a Agrishow, de longe a mais rentável, mas ainda sem a tradição de Esteio (com sua raça crioula), de Uberaba (com o gado leiteiro em excelência) e Londrina (com sua genética e seus quatrocentos e tantos mil visitantes). De 13 a 16, emendei com a FIQ, a Feira Internacional em Qualidade de Equipamentos, Matéria-Prima e Acessórios para a Indústria Moveleira, em Arapongas, onde fica o segundo maior polo moveleiro do Brasil. Aproveitei o feriado de quarta-feira, dia 21, enforquei a quinta e a sexta subsequentes e vazei para Guará. Visitei a Natália na ida e na volta. Na ida, passei em Echaporã e filei aquele café da Giovanna, dei um abraço no Bruka e vi que Pedro está cada dia mais peralta.





Na Expo-Londrina, trabalhei com uma equipe porreta. Sob a batuta de Benê Bianchi e Andrea Monclar, fiz matérias junto com Emília Miyazaki, Antônio Mariano Júnior, Telma Elorza, Mirela (que cuidava do blog) e Fernanda (sobrinha da Andrea, de Osvaldo Cruz). Fomos secretariados pela Lara, bela morena que Londrina roubou de Iturama (MG) e que o mundo da produção artística ameaçava roubar de Londrina. Em Arapongas, trampei com a "chefe" Cláudia Romariz, Antonieta Toledo (que veio de Assis-SP) e o fotógrafo Gabriel Teixeira, a quem pedi o clique acima. No meio da feira, topei com a Érica, sobrinha de um antigo enrosco meu em Arapongas. Quando não saía da casa da vó dela, a dona Ceiça, Érica estava para completar 18 anos. Hoje está casada, é mãe, mas está longe de perder o fulgor da juventude. Trabalhou no estande da Berneck, indústria de madeira sediada na região metropolitana de Curitiba.



Por conta do mês atarefado, acabei não conseguindo colaborar com Régis Querino na edição de maio da Revista Real, que o "Papagaio" empreendeu em Londres, onde está há um par de anos com a mulher, Adriana. A revista é dirigida aos leitores e anunciantes da colônia tupiniquim de lá, que é grande à beça. De cabeça, assim, sei que moram lá a Cláudia, jornalista que trabalhou comigo na Folha de Londrina, na década de 90, e hoje é dona de imóveis na capital inglesa; Vanusa Macarini, que também trabalhou lá e é filha de Walmor, o mais longevo - se não me engano - diretor de Redação da Folha; o Turquinho, que eu conheci no Diário de Maringá; a Luciana Franzolin, que fez uma pós em foto na UEL antes de se aventurar na terra da Rainha e hoje namora um jornalista cipriota, que tive o prazer de conhecer em Bauru... Aí, ó, esse lance de citar nomes é phoda porque fico com a sensação de ter esquecido alguém. Essas duas ilustrações são de textos meus. Foram feitas pelo Edvaldo Jacinto, fera da criação, que trabalha na Raf Propaganda, onde a revista do Régis é diagramada. Quem quiser dar uma sapeada, o endereço é www.revistareal.com.




E pra terminar abril bem, no último dia ainda fiz um frila pro Estadão, cobrindo a passagem de Marina Silva por Londrina. Engraçado, essas coisas. Foi o Estadão quem me tornou jornalista. Meu pai assinava lá em Guará. Eu lia sempre, devorava esportes, mandava alguns editorais, colecionava os suplementos rural e cultural. Daí tinha uns 15, 16 anos, quando houve uma manifestação no trevo da cidade, pedindo a duplicação da Anhanguera, que naquele ponto matava muita gente - tinha uma descida, vinda de Ituverava, em que os caminhoneiros mandavam ponto morto e dava-lhe banguela; em dias de chuva, era raro um que não terminava com as rodas pra cima. Mandei uma carta para a Redação do Estadão, sobre a manifestação. Postei a bichinha pouco antes das seis, com o Correio quase fechando. Saiu a carta, e eu achei que poderia ser jornalista. Olha aí o que virou. Quando estava no comecinho da carreira, o Widson Schwartz, que era o correspondente em Londrina, já meio de saco cheio das tarefas a ele atribuídas pela Agência Estado, me pagou um frila para eu ir a Bandeirantes, em 1989, numa quarta à noite, cobrir União x São Paulo, pela primeira rodada da recém-criada Copa do Brasil. Era para cobrir o jogo e passar algum texto por telefone, que o Jornal da Tarde esperaria. O União entrou na Copa do Brasil como vice-campeão paranaense - perdera o título no ano anterior para o Coritiba porque jogou as duas partidas da decisão na capital e também perderia o de 1992 para o Londrina porque jogou as três finais no Estádio do Café. O São Paulo ganhou de 1 a 0, gol de um zagueiro que, me informaram na época, estava estreando no time: Antônio Carlos, que depois viria a jogar com sucesso no meu Palmeiras e hoje é o técnico do Verdão.
***
Por falar em futebol, o troço tá do avesso mesmo: o Corinthians terminando a primeira fase da Libertadores em primeiro lugar e o Palmeiras ganhando do Atlético Goianiense na Copa do Brasil com pênalti roubado aos 49 do 2º. Não, esse não é o futebol que eu conheço.